quarta-feira, 22 de setembro de 2010

" O ASSASSINO EM MIM"


O maior medo que a violência pode proporcionar a todos nós nunca será o grau da violência gráfica, mas sim de como essa violência em geral molda o homem e cada ato que fizer seja de uma maneira tão extrema que temos medo não dos seus atos, mas sim os seus significados. É esse o ponto de partida para The Killer Inside Me, novo filme do diretor Micheal Winterbottom.

Anos 50. Em uma cidade pequena do Texas, um assistente de xerife Lou Ford (Casey Affleck) é praticamente um cidadão acima de qualquer suspeita. Pacato, tranqüilo, ajuda a todos os amigos e namora uma moça belíssima e recatada chamada Amy (Kate Hudson). Por trás disso tudo ele demonstra ser uma pessoa diferente do que se imagina e o trabalho de expulsar a prostituta Joyce (Jessica Alba) é o ponto de partida de um desenvolvimento de um instinto que está longe de terminar.

Fiquei interessado em ver o filme quando soube da polêmica gerada sobre ele no Festival de Sundance onde dizem que a atriz Jessica Alba se retirou do festival na hora em que o rosto de seu personagem (a prostituta Joyce) foi mostrado como um tomate estourado depois de levar uma surra do personagem de Affleck, o filme ficou marcado como extremamente violento e perturbador. Claro que isso me chamou atenção. Outro ponto interessante mostrado no filme é a “tara” por bater em bundas que o psicopata Lou tem com as mulheres (Graças a essa mania podemos ver a bela bunda da Jessica Alba e o bundão da Kate Hudson no filme) o que muitos podem até pensar que não tem nada de anormal… Até o filme mostrar como ele (ou de quem) pegou essa mania, putz! Não vou contar pra não perder a graça, mas dai que tive uma idéia de como ele se tornou um psicopata.

Adaptação do livro de Jim Thompson é escrito por John Curran, o livro já teve uma adaptação nos anos 70, mas pouco lembrado. Muitas pessoas saíram com raiva na sessão em Sundance no começo do ano por causa do teor elevado de sua violência e com a ótica sem limites de Winterbottom, culminou uma sessão rica de sentimentos opostos, desde repúdio a admiração.

O roteiro de Curran não poupa em nenhum momento o espectador respirar em paz quando está diante do personagem Lou Ford. Ele o desenvolve de uma maneira tão vil,mas ao mesmo tempo tão sedutor que em cada ato especifico do filme, desde um sorriso maquiado até no olhar após algum ato bárbaro, que facilmente se torna um dos personagens mais cruéis que já tive testemunha na história do cinema. E também, claro, a temática da violência no qual se desenvolve para o personagem em si como um senso comum, como algo rotineiro, e é esse ponto que está a genialidade do seu roteiro, por que transforma a violência psicológica que Lou transmite na tela, em algo mais assustador do que a própria violência gráfica do filme.

Nada seria concreto sem a atuação impecável de Casey Affleck para o personagem Lou. O ator cria um personagem tão assustador que impressiona o espectador em manter por muitas vezes o rosto sereno nos momentos mais tensos. Sem duvida a melhor atuação desse ator, mas não sei se devo manter esperanças de sua indicação a premiações importantes como Globo de Ouro ou o Oscar. Kate Hudson e Jessica Alba representam a sensualidade ao extremo. E também tirar o chapéu para as duas por suportarem dois papeis extremamente difíceis e que conseguem tirar de letra, principalmente Jessica Alba em uma das seqüências mais impactantes e pertubadoras desse ano. Também no elenco tem Simon Baker em uma atuação correta e uma participação interessante, porém fundamental de Bill Pullman.

The Killer Inside Me/ O assassino em mim, sem duvida é um dos melhores filmes do ano em minha opinião, mas dificilmente é aquele tipo de filme que pode recomendar a todos. Mas não por que seja ruim, e sim do seu grau de violencia ser tão alta que consegue chocar até mesmo as pessoas que tem a mente preparadas a ver tudo isso. O que Winterbottom transmite nesse filme, e de uma maneira quase épica, que a pior violência não é aquela que se vê, é aquela que o homem carrega por dentro e o transforma em um estilo de vida.

NOTA 4 ÓTIMO

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

"OS COLETORES"


Uma premissa intrigante e original sempre é um bom primeiro passo para o desenvolvimento de uma obra extraordinária. Veja Minority Report, por exemplo, a idéia de prender assassinos antes deles cometerem crimes, baseando-se nas visões de cognitivos. Explorada com maestria por Steven Spielberg, esta é uma ficção científica antológica que expande as barreiras da ciência e cria diversos questionamentos morais. Vingador do Futuro atingiu este mesmo nível de excelência. E isto apenas para citar dois exemplos, em um farto espectro de obras de um gênero rico e limitado apenas pela criatividade e invenção de seus roteiros.

Os Coletores, apesar de tematicamente similar ao pavoroso Repo! The Genetic Opera, conta com uma premissa original - até porque na minha opinião "aquilo" não deveria ter existido. Em um futuro próximo, uma empresa chamada A União financia órgãos artificiais (ou artiforgs), como corações, pulmões, fígados. Aos beneficiários cabem o pagamento das prestações mensalmente, e em caso de atrasos, os coletores do título poderão legalmente extrair o órgão (ou repossuí-lo) do corpo da pessoa inadimplente. Um curioso conceito que o personagem de Jude Law em determinado momento compara com a hipoteca de uma casa por um banco qualquer.

Nas mãos de roteirista e/ou diretor competentes, este conceito não apenas seria expandido satisfatoriamente como facilmente provocaria notórios dilemas. Sem me aprofundar, mas repossuir um coração se resume a um homicídio, ao mesmo tempo em que é perfeitamente justificável pois a propriedade daquele coração é da empresa que se não o houvesse fornecido em primeiro lugar já teria causado a morte do paciente. A própria natureza da descoberta de enxertar órgãos artificiais no corpo humano produziria up grades que antes não seriam possíveis, como uma super audição, ou aperfeiçoamento da visão, dentre outras coisas.

Mas, Os Coletores não está interessado em nada disto. Com sua narrativa extremamente derivativa - similar a Minority Report - Remy (Jude Law), um coletor, ao repossuir um órgão acaba sendo vítima de uma descarga que o torna beneficiário de um coração artificial. Não conseguindo pagar as dívidas e em meio a separação de sua esposa, Remy acaba se voltando contra o próprio sistema que antes defendia, desenvolvendo uma consciência tardiamente. Jake (Forest Whitaker), seu melhor amigo, acaba sendo escalado para repossuir o coração de Remy, que parte em uma cruzada contra A União e todo o sistema.

O diretor Miguel Sapochnik investe em um futuro com trens que andam entre os arranha-céus - alô, alguém viu Batman Begins? -, e apresenta uma técnica de induzir pessoas à beira da morte a um sonho eterno e feliz - igual a Vanilla Sky talvez -, mas tudo que é descrito ou apresentado carece de um ar de novidade, se tornando enfadonho e exaustivo. Até mesmo o interior das casas aparenta-se demais com "o presente" e não um futuro próximo. Se o visual futurísta é ruim, pior o desenvolvimento da narrativa e seu senso de humor desprezível. Por exemplo, testemunhar uma operação cirúrgica realizada por uma criança ou um filho que acerta acidentalmente a mãe com um tranquilizante. No entanto, Sapochnik atinge o fundo do poço em uma cena erótica em que Remy e Beth (Alice Braga), substituem o prazer do orgasmo pela dor de um procedimento cirúrgico manual.

Pobre Jude Law, que no meio da incoerência narrativa acaba não sabendo se está em um filme de humor, um drama, ou uma ficção científica. Atravessando às 2 horas de projeção quase que com um ar de incredulidade, o ator é sabotado sempre quando parecia desenvolver algum arco dramático. Em determinado momento ele praticamente abandona o filho, completamente desviado do caráter do personagem. E se Liev Schreiber parece rir de si mesmo, Forest Whitaker me surpreendeu, negativamente, com as motivações de seu personagem e o porquê dele ter feito o que ele fez me permanece um mistério absurdo (ok, a culpa não é dele, é do roteiro, mas quem mandou assinar?).

Grotesco quando deveria manter-se misterioso e recheado com cenas descartáveis quando deveria ser oportuno e inteligente, o roteiro ainda tenta mandar o espectador para casa com um final surpreendente, que é telegrafado em pelo menos três momentos quando é mencionado ou em um diálogo entre os personagens ou em um anúncio fora de cena. Desta maneira, Os Coletores representa todas as características que uma ficção deve evitar: previsível, derivada, preguiçosa, inepta. Um dos piores filmes do ano, certamente.

NOTA 1 RUIM

" GREENBERG"


As comédias dramáticas são a especialidade cinematográfica de Noah Baumbach, um cineasta que já nos apresentou algumas produções que conseguiram conquistar a crítica especializada, como por exemplo, “Margot at the Wedding” (2007) e “The Squid and the Whale” (2005). “Greenberg” é a sua mais recente incursão neste gênero e tal como aconteceu com os seus últimos trabalhos, Noah Baumbach voltou a convencer a crítica com uma história relativamente interessante que é protagonizada por uma personagem extremamente complexa.

Roger Greenberg (Ben Stiller) é um solteiro de quarenta anos que poderia ser qualificado como um indivíduo deprimido e obstinado. Phillip (Chris Messina) é o seu irmão e é o seu exato oposto porque tem uma atitude positiva, um casamento extremamente feliz e um emprego muito estável e rentável. Phillip decide fazer uma viagem com a sua família ao vietnã e decide deixar a sua mansão entregue ao seu menosprezado irmão que aceita o convite, mas com objetivos perfeitamente claros, ou seja, ele pretende tomar conta da mansão e não fazer rigorosamente mais nada, no entanto, enquanto cumpre os seus propósitos minimalistas, conhece Florence (Greta Gerwig), uma simpática e sempre solitária assistente particular/governanta do seu irmão, que quer se tornar numa famosa cantora. O encontro entre estas duas almas extraviadas acaba por se revelar uma oportunidade única na insípida existência de Roger mas estará ele verdadeiramente preparado para abandonar a sua depressão crônica e começar a viver?

O argumento de “Greenberg” é extremamente competente porque consegue cumprir todos os grandes propósitos que nos são prometidos pela sua premissa, ou seja, consegue oferecer ao espectador uma narrativa muito explícita e muito emocional sobre a fragilidade e a fugacidade da nossa existência e a necessidade que todos nós temos em aproveitar ao máximo a nossa vida. O seu protagonista é uma personagem emocionalmente perturbada que finalmente percebe que os seus últimos anos não correram como o esperado e que a sua existência está submersa num estado emocional verdadeiramente caótico, assim sendo, vamos sendo confrontados com uma verdadeira transformação subjetiva desta personagem que à medida que vai entrando em contato com as suas fragilidades psicológicas vai alterando radicalmente o seu estado de espírito, uma mudança que vai influenciar claramente a forma como enfrenta a sua vida.

“Greenberg” não é um filme muito alegre porque o seu desenvolvimento narrativo não é sustentado por uma construção muito otimista, no entanto, a sua conclusão contraria esta construção porque nos apresenta um final que apela claramente à felicidade e ao otimismo do espectador, ou seja, esta conclusão acaba por retirar algum impacto emocional a esta curiosa produção cinematográfica. As várias personagens que intervêm em “Greenberg” obedecem a uma construção muito completa e a um desenvolvimento muito coerente e interessante, uma característica extremamente positiva que enriquece inegavelmente este filme.

O trabalho técnico de Noah Baumbach em “Greenberg” não é excepcional mas é extremamente satisfatório. O cineasta conseguiu criar um interessante ambiente emocional que acompanha convenientemente os vários momentos importantes do argumento. O elenco de “Greenberg” é liderado por Ben Stiler, um ator que regressou com este projeto aos trabalhos cinematográficos mais sérios e menos superficiais. A sua performance é surpreendentemente competente porque consegue interpretar sem grandes falhas a sua complexa personagem. Greta Gerwig também nos oferece uma excelente e surpreendente performance secundária porque apoia convenientemente o principal desta produção.

A performance comercial de “Greenberg” em território americano não foi muito convincente, uma situação que é facilmente explicada pelo simples fato desta produção não ser emocionalmente atrativa porque aposta num argumento muito negativo que afasta a esmagadora maioria dos espectadores que costumam preferir uma produção cinematográfica que os consiga entreter, no entanto, esta comédia dramática é ideal para todos aqueles que procurem um filme que os obrigue a pensar e refletir sobre nossas vidas e nossas escolhas.

NOTA 4 ÓTIMO

"OS PERDEDORES"


Existe uma grande diferença entre ser um idiota e parecer ser um idiota. Muitos filmes acabam errando na medida e se tornam uma piada ao invés de fazer uma piada. Sátiras geralmente caem nessa armadilha, e se tornam mais ridículas ainda. Há uma linha tênue entre esse dois mundos. E no caso de “Os Perdedores” essa linha jamais é ultrapassada. A proposta é ser um filme divertido, mas não necessariamente ruim; outro erro que muitos cometem. Escuto o tempo todo “Ah, é um filme divertido”. Não. É um filme ruim. E pronto. Pode até ter sido feito com esse objetivo, mas existe filme divertido e bom, vide Homem de Ferro, Piratas do Caribe, e esse sobre o qual vos escrevo.

Os perdedores do título são uma equipe de combatentes vinculados a CIA e envolvidos em operações de alta complexidade e natureza duvidosa e que, por isto mesmo, não podem ser associadas ao Governo Americano. A última delas é marcar um alvo, a mansão de um contrabandista, em plena selva Boliviana para ser destruído em ataque aéreo. Mas, o que eles não sabiam é que seriam traídos e deixados para morrer pela CIA, mais especificamente pela voz no telefone chamado Max (um Charlie, de As Panteras, do mal).

Estabelecendo-se como um exemplar misto de comédia e ação, a cena inicial ilustra claramente as pretensões do diretor Sylvain White. Estabelecendo satisfatoriamente a camaradagem entre os membros da equipe em uma disputa de machões, o diretor em seguida investe na ação, basicamente tiros e explosões, usando bastante o recurso da câmera lenta e do congelamento de quadros (acompanhando a batida da trilha sonora em uma cena específica, o que confesso não tem nenhum valor narrativa, apenas estilístico).

Aliás, em Os Perdedores existe uma predileção pelo estilo em detrimento da substância, mas felizmente com bons resultados. Especialmente, na composição de belos quadros, como a queda do helicóptero, ou no quarto de hotel em chamas até uma inimaginável colisão vista no clímax da narrativa. White também usa os efeitos digitais de forma apropriada, na qual destaco a fuga de Aisha (Zoe Saldana) vista através de um caco de espelho. Finalmente, a narrativa não esquece de algo fundamental: devemos acreditar que aqueles homens realmente são capazes do que fazem e neste sentido, eles se saem ótimos estrategistas como no roubo de um grande furgão.

Embora cada membro da equipe seja estereotipado ou por sua especialidade, a liderança do Coronel Clay (Jeffrey Dean Morgan), ou por um objetivo específico, o reencontro com a esposa de Pooch (Columbus Short), é relevante notar como todos têm bons desempenhos, sem soar como bonecos dos comandos em ação. Se Roque (Idris Elba), revela-se ameaçador, e o franco atirador Cougar (Óscar Jeanada) jamais erra um tiro, o destaque da equipe é o imaturo, e talvez insano, Jensen (Chris Evans). Sempre desfilando uma camiseta colorida, o especialista em informática da equipe protagoniza os melhores momentos de humor do longa, como a invasão da empresa Goliath, pontuada por uma trilha sonora acentuando o aspecto cômico, que revela o poder “telecinético” do rapaz.

Além disto, outro destaque do elenco é o vilão Max, interpretado por Jason Patric com irreverência e excentricidade, mas jamais deixando de ser perigoso. Apresentado a partir de seus adereços, o sapato, o relógio, o pin da bandeira norte-americana e a luva na mão esquerda, Max é uma versão light do Coringa, vivendo uma era do "terrorismo verde do século XXI", ele sequer hesita em matar a mulher do guarda-sol porque esta deixou-o brevemente descoberto.

Talvez o elemento realmente perdedor do longa seja o roteiro escrito pelos talentosos Peter Berg e James Vanderbilt. Esquemático e previsível, além disto, as reviravoltas acabam não funcionando quando analisadas em retrospecto. E, a dupla de roteirista comete o erro primário quando em um momento Roque insiste que Pooch não vá para uma missão, quando na cena seguinte ele estimula o companheiro a participar desta.

Desconheço a série de HQ que deu origem ao filme, mas trata-se de uma série criada por Andy Diggle e Jock, que foi publicada pela Vertigo/DC Comics entre 2003 e 2006. O filme é recheado de ação e de uma mistura, na medida certa, de humor entre as cenas e diálogos. “Os Perdedores” cumpre o prometido: não leve nada a sério, e se divirta. Ignore o vilão caricato, as “mentiras”, explosões, pois o filme é honesto. Honesto, essa é a palavra, “Os Perdedores” não é um filme idiota, só quer parecer.

NOTA 3 BOM

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

" PÂNICO NA NEVE"


Joe (Shawn Ashmore), Dan (Kevin Zegers) e Parker (Emma Bell) planejaram um divertido fim de semana para fazerem ski. Tudo estava correndo bem, até que os três amigos resolvem fazer uma última descida quando já ninguém estava na pista, apenas um funcionário que aceitou dinheiro de Parker, e deixou os três amigos desceram mais uma vez a pista, depois de esta, já se encontrar fechada ao público. Mas uma série de mal entendidos acontecem enquanto os jovens sobem a montanha através de um teleférico, e um dos funcionários acaba por desligá-lo, e sem saber, deixar os três jovens presos. Esquecidos na montanha, a mais de 20 metros do chão, sobre um frio congelante, os três amigos terão de arranjar uma solução para escaparem vivos, e não morrerem congelados.

Adam Green ficou conhecido por ter realizado ”Terror no pântano”, um slasher com algum estilo, devo confessar… Mas Green optou por deixar o trash e rumar noutra direção, mais precisamente ao suspense psicológico, que é o caso de “Frozen”, em mais uma péssima tradução tupiniquim “Pânico na neve”. Em ambos os estilos, Green mostrou ser um realizador razoável, que pode evoluir muito ainda.


De inicio pensei que ”Frozen”, era mais um daqueles filmes de terror para adolescentes, que têm saído aos montes nos últimos tempos… mas tenho de admitir que me enganei em relação ao filme. A história acaba por ser criativa, e muito simples ao mesmo tempo… E Adam Green consegue trabalhar bem com isso e fazer um bom filme, pois não pensem que desenvolver uma narrativa, com apenas três pessoas paradas num teleférico no meio do nada, é fácil…


A história é criativa, simples, e consegue cativar a maior parte dos espectadores. No entanto, para um especialista ou uma pessoa que coloque um pouco mais de pensamento no assunto, acaba por perceber que se trata de uma história sem grande credibilidade. Digo isto, porque as pistas de ski fecham muito antes de anoitecer, e são obrigados a fazer as cadeiras desfilarem mais uma vez, para verificarem que não existe ninguém sentado numa delas, e para além disso existe uma patrulha noturna que faz rondas pela pista. Mas tirando estes detalhes, a história consegue ser convincente, levando certas pessoas que não estejam familiarizadas com pistas de ski, a pensarem que algo do gênero poderia mesmo acontecer. De qualquer forma, a história acaba por ser convincente, e é isso que realmente interessa.


Os atores Kevin Zegers, Shawn Ashmore, Emma Bell não são propriamente desconhecidos para quem ande atento, e devo confessar que este trio de atores surpreendeu-me. A química entre os três é ótima, e conseguiram desenvolver personagens minimamente interessantes. Sendo que as personagens neste gênero de filme, e os atores que as interpretam são extremamente importantes, pois são poucos os atores presentes no filme, e a história desenvolve-se praticamente através dos diálogos que têm uns com os outros. Se as interpretações não fossem boas, o filme com uma história tão simples e tão parada se tornaria num verdadeiro fracasso, mas tal não foi o caso, e as interpretações são bastante boas, fornecendo ao espectador verdadeiros momentos de tensão psicológica.

Não é um filme sem falhas, mas é interessante… E é notável que Adam Green tenha conseguido desenvolver uma história tão simples e tão parada de maneira tão eficaz, tornando-a cativante. Pode não ser um dos melhores realizadores da atualidade, mas com certeza não será um dos piores e num futuro próximo é provável que venha a realizar outros filmes com qualidade idêntica ou superior.

NOTA 3 BOM

"MARMADUKE"


Marmaduke é um dog alemão falante, bastante bagunceiro, extrovertido e medroso. Ele muda de cidade com sua família, do Kansas para a Califórnia, já que seu dono quer impressionar o novo chefe e, assim, acaba influenciando dog alemão a deixar as coisas que realmente importam de lado.


Dessa forma, o filme apresenta inúmeras lições de moral, principalmente no que diz respeito à amizade, quando o cãozinho falante pretende conquistar novos amigos e a namorada do cachorro mais valente do parque. Ele acaba fingindo ser um cachorro que não é.


A direção é do fraco Tom Dey (“Armações do Amor”) que não faz a mínima questão de acrescentar nada a humanidade, tão pouco ao seu filme. É um festival de clichê até na própria direção. O que dizer das cenas de confusão causadas pelo incontrolável cão atrapalhado que motiva as pessoas a derrubarem objetos sem que o cachorro ao menos encostasse nelas? Já as cenas com falas entre amigos beiram o ridículo, e não é só pelo recurso das falas, mas principalmente pela péssima forma como foi conduzida.


E os clichês não param. Continuam por todos os lados. E para piorar tudo, vem a utilização do humor forçado para tentar levantar um tom cômico na obra. Isso é feito da maneira mais comum possível e sempre causada pelo cachorro bagunceiro, que, diga-se de passagem, parece que não faz outra coisa da vida. Quando ele está entre amigos, é interessante notar que os planos que enquadram os cachorros procuram mostrar os detalhes como a expressão, o olhar, algo que até soa bem, mas que acaba sendo prejudicado pela péssima execução da obra.

E se tudo caminhava para um desastre, encontramos uma trilha sonora que vai contra a maré. Embora não tenha nada de novo, ela cumpre o seu papel e é responsável pelas cenas mais eficientes. Uma delas ocorre no início do longa, quando ainda estamos conhecendo o protagonista. O clipe musical misturando a amizade entre os cães e as peripécias do dog alemão é interessante e, de certo modo, eficiente, já que seu público alvo, as crianças, adoram cenas desse tipo. Algo também já bastante utilizado nas obras do tipo.

O lado sentimental funciona. Atualmente, é muito mais realista um cachorro fazendo um gesto de amizade a outro de sua espécie ou até para uma diferente, do que um humano fazendo o mesmo. Os animais, principalmente os cães, têm esse vínculo de companheirismo e amizade. A competitividade existe, mas não supera os princípios básicos da vida. O olhar de um cachorro é uma das coisas mais tocantes que podemos ver. Na obra, o olhar de Marmaduke triste é bem realista.

Num elenco bastante fraco, ninguém se destaca. Os donos mais parecem marionetes da história do cãozinho atrapalhado. Lee Pace (“Confidencial”) só não chega a ser uma grande decepção porque ele nem se quer chegou a ser uma promessa. Assim, percebe-se um elenco que serve de escada para exaltar ainda mais as qualidades dos animais no geral, principalmente, dos amigos de Marmaduke, que são os verdadeiros destaques da obra, talvez até mais do que o próprio cão bagunceiro.


Sobre o público alvo da obra é importante ressaltar que as crianças não são mais tão bobas quanto essa história acredita. É importante notar que não adianta mais utilizar recursos que deram certo em longas clássicos do gênero, mas que agora estão naturalmente desgastados. Podem colocar cão falante, podem colocar ele para surfar, podem viajar na imaginação, só não podem tratar o público como algo preso ao passado.

No fim dos 87 minutos temos mais um filminho de verão para as crianças e somente para elas. Na prática, talvez nem para elas. Um filme que não acrescenta nada, provoca algumas sorrisos amarelos e traz em seu repertório uma série de lições de moral, que até são válidas, dependendo da forma colocada. Em outras palavras, o filme deixa um gostinho de Sessão da Tarde dos anos 90.

NOTA 1 RUIM

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

" A EPIDEMIA"

Uma cidade pequena e pacata, um vírus desconhecido, um exército de pessoas contaminadas, estes são os principais ingredientes para o longa de terror “A Epidemia”. E, mais uma vez, não restará outra coisa aos habitantes da cidade a não ser a luta pela sobrevivência aos terríveis ataques dos exterminadores. O xerife da cidade David e sua mulher também são capturados pelas tropas e lutarão não só pela sobrevivência, mas também para continuarem juntos dentro da área separada para eles.

Algo bem relevante a ser dito é que o filme marca a volta dos famosos “mortos-vivos”. As pessoas que contraem o vírus transformam-se nas criaturas que por muito tempo tiraram o sono de uma geração. É interessante perceber o clima nostálgico que o surgimento dessas criaturas proporciona. Em um ambiente marcado pelos efeitos visuais de última geração, elas aparecem com sua simplicidade e objetividade que criam um aspecto mais realista a estes seres e, por isso, tenham causado tanto medo, algo que hoje em dia dificilmente acontece.

Na direção está Breck Eisner, que só havia dirigido filmes e séries para a TV. Ele respeita a versão original e acrescenta o ritmo tão conhecido nas obras atuais. É só observar as cenas de fuga dos personagens em que a câmera acompanha quase colada no elenco. O ângulo de visão também varia e muitas vezes assume o papel do personagem e seu olhar na cena. Recursos que muito agradam e surtem efeito principalmente na “modernização saudável” do filme.

Ainda assim, o roteiro não agrada e repleto de falhas que tiram da credibilidade da obra. As falhas estão por toda a parte, desde as coincidências forçadas a até mesmo a falta de explicação dos fatos, como a cena em que o sangue do xerife entra em contato com o de uma infectada e ele não contrai o vírus. Assim, o roteiro respeita até demais a versão anterior repetindo falhas que naquela época não eram tão interrogadas como hoje.

No elenco estão Timothy Olyphant e Radha Mitchell. O ator que faz o xerife David consegue ter um desempenho bem interessante a obra. Além de ser a principal autoridade da cidade, ele é também o principal nome do filme e consegue fazê-lo de forma modesta e eficiente. Já a atriz que interpreta Judy, esposa do xerife, faz um trabalho até melhor do que o seu companheiro de cena. A cena em que ela observa a crueldade dos infectados é digna de elogios.

Dentre os principais atrativos do longa estão os efeitos visuais e sonoros. Estes últimos os mais requisitados, uma vez que não faltam na obra cenas de ação e suspense em que o som tem total valor de impacto. As cenas de fuga e seus obstáculos só comprovam isso. Já os efeitos visuais, sobretudo no fim da obra, impressionam por tamanha precisão e acabam dando o tão almejado toque moderno. É bom lembrar que o equilíbrio é o mínimo que se espera, já que não se pode descartar nem passado nem presente.

O que faltou a esta obra sobrou em duas obras similares. Em “Extermínio”, e sua continuação,“Extermínio 2”, esbanjaram de um realismo poucas vezes visto em filmes do gênero. Em “A Epidemia” faltou essa realidade próxima. Tudo é muito superficial. E quando tenta fugir disso soa forçado e distante do compreensível. Em determinado momento, a tamanha sorte do xerife que consegue escapar de todos os ataques chega a ser cansativo a tal ponto do público torcer para que ele seja atingido.


“ A Epidemia” não consegue acrescentar muita coisa à obra original. A missão de trazer uma trama do passado deve ser encarada com mais cuidado, sem deixar de lado um componente fundamental e diferencial, a ousadia. Os tempos são outros e o público também.


NOTA 2 REGULAR