sexta-feira, 3 de setembro de 2010

"KARATE KID"


Karate Kid (Karate Kid, USA/China, 2010), de Harald Zwart, é um remake do filme homônimo da década de 80, com suas devidas atualizações para chamar mais atenção ao público infanto-juvenil atual, como Lady Gaga e Justin Bieber na trilha sonora.


Dre Parker (Jaden Smith), um garoto de 12 anos, se muda com a mãe (Taraji P. Henson) para Pequim, devido ao trabalho dela. Enquanto tenta se adaptar, conhece Meiying (Han Wenwen) e logo se interessa por ela, chamando a atenção de Cheng (Zhenwei Wang) que começa a persegui-lo e bater nele junto com sua pequena gangue. Para se defender contra o bullying, Dre decide aprender Kung Fu e o Sr.Han (Jackie Chan), zelador do prédio que mora, parece ser o mestre ideal para ele.


É claro que não poderia faltar o “inglês onipresente” no filme. O tempo inteiro, Dre não mostra interesse em aprender chinês e quase todos os diálogos são em inglês (e ainda vai ter americano reclamando que foi difícil acompanhar as legendas nas poucas cenas que existem). Karate Kid, em certos momentos, é mais uma apresentação visual de certos lugares da China e da sua cultura, mas tudo de maneira muito superficial e bastante turística.


Por falar em superficialismo, isto é algo que caracteriza grande parte do filme. Dre mesmo treinando e dominando as técnicas, parece que a filosofia da arte marcial é pouco (ou nada) incorporada por ele. Quando parece que algo mudou, na cena seguinte ele volta a ser quem sempre foi, um garoto mimado e exibido. Karate Kid é um verdadeiro curso de técnicas de arte marcial instantâneo, estilo o miojo: prático e rápido, mas totalmente artificial.


Apesar de não conhecer nada sobre o Jaden Smith, parece que ele está apenas interpretando ele mesmo, um garoto mimado que se acha o centro das atenções e totalmente cool (será que puxou o pai?). O que acaba sendo engraçado em Karate Kid de tão ridículo que é. Já Jackie Chan está com uma interpretação dramática, ele teve poucas oportunidades de interpretar um papel assim, e a tomada em que luta contra 6 meninos, que estavam perseguindo Dre, fazendo com que eles se acertem mutuamente, ficou ótima.


A única coisa realmente desnecessária em Karate Kid, foi uma cena em que Meiying (Han Wenwen) dança para Dre, com uma música da Lady Gaga no fundo. Ficou uma sexualização da garota totalmente dispensável (tem até um vídeo dela no Youtube fazendo algo parecido num evento de estreia do filme com uma roupa de couro e poses mais ousadas). Para um filme focado para um público mais infanto-juvenil não faz sentido nenhum uma cena assim, se o foco fosse adolescente aí já é outra história.


Estava com um pé bem atrás para ver este Karate Kid, que na verdade deveria ser Kung Fu Kid porque de Karate não tem praticamente nada, mas me surpreendi com o resultado. Tirando alguns detalhes, não houve nada que comprometesse muito o resultado final. Ele foi bem estruturado, filmado e montado. Tudo feito direitinho, incluindo a cena final congelada, em homenagem aos filmes da época do original. Para quem conhece a história, não terá nenhuma surpresa em relação ao enredo, mas ainda assim é divertido e cativante.



NOTA 3 BOM

"SOLOMON KANE- O CAÇADOR DE DEMÔNIOS"


Como localizar Solomon Kane – O Caçador de Demônios no tempo? A história se passa na Idade Média (final do Século 16); o personagem criado por Robert E. Howard surgiu em 1928 na Weird Tales; o filme chega aos cinemas em 2010. Porém, a produção parece ter saído do forno cinematográfico do final dos anos 80 e início dos 90.

Quantas vezes já não vimos um herói maculado no passado que busca redenção e está disposto a pagar com a vida e ir até às últimas consequências para salvar quem for preciso? Quando a meia dúzia de diretores americanos foi derrotada em meados dos anos 70 e não conseguiu subverter Hollywood, a tecnologia tornou-se elemento preponderante e choveram filmes na linha “aventura fantástica” focada em um super-herói que derrota o Mal sem pestanejar.

Se não fosse pela qualidade visual proporcionada pela tecnologia de hoje, Solomon Kane – O Caçador de Demônios seria facilmente confundido com a safra Rambo. Na trama, Solomon (James Purefoy, figura carimbada na TV) é um guerreiro implacável de alma condenada. Para limpar seu passado sanguinário, ele tem de usar sua força e coragem para salvar uma garota de alma pura e, assim, viver uma vida de paz.

A ordem do caos, o herói que abdica de seus desejos para salvar alguém, a jornada que revela verdades encobertas, as pessoas queridas que morrem pelo caminho e despertam sua ira, a quase desistência, o vilão que é um poço de maldade, blá, blá, blá, lá vamos nós de novo para o mesmo tipo de história.

Solomon Kane – O Caçador de Demônios é aquilo: você lê a sinopse e já sabe o final do filme, olha para a cara de James Purefoy e pressente o próximo diálogo, ouve a trilha incidental e advinha que um novo perigo está por vir. E ainda ganha de brinde algumas cenas idiotas recheadas de falas explicativas, especialmente para os espectadores que perderam um pedaço do filme na hora de comprar mais pipoca.

Se o que te interessa no cinema é ver mais do mesmo (aventura com efeitos especiais abaixo da média e história previsível), Solomon Kane – O Caçador de Demônios é um prato cheio, um digno Rambo na Idade Média. Senão...

NOTA 1 RUIM

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

" O AMOR EM BEVERLY HILLS"


O Amor em Beverly Hills começa como uma comédia romântica padrão, mas não leva muito tempo para que percebamos que o filme se transforma em algo diferente e interessante. Sim , o filme contém a sua quota de envolvimentos românticos e o amor é o motivador de ações para vários personagens na história, mas a estréia dos co-diretores David Ren e Kern Konwiser aspira a ser mais profunda do que a do conto menino-move-o-possível-e-impossível-para-ficar-com-a-garota. Amor em Beverly Hills é sobre a conexão com as pessoas, a cultura e principalmente o entendimento do seu “eu” interior. Antes do personagem principal amar outra pessoa, ele precisa compreender a si mesmo antes de tudo.

Essa pessoa é Liam Liu (Ken Leung), um aspirante a ator sem a sua identidade cultural resolvida, que passa seus dias em Los Angeles de teste em teste para conseguir um papel na espera para a tão esperada realização profissional. Ele é afastado do seu pai(James Wong), mas depende da mesada que o pai deposita para ele todo mês.

Seu melhor amigo(a) é Adelaide(Hayden Panettiere), uma linda e alegre adolescente que ele por acaso encontra num dia no ônibus, ela rapidamente passa a se convencer que os dois são um casal, mas ele já não tem lá tanta certeza disso. A diferença de idade entre os dois que é de 12 anos assusta Liam, mas não tanto quanto o pensamento de tornar-se emocionalmente íntimo de outra pessoa. Para Liam, o sexo é uma coisa muito solitária, ele nunca se sente mais sozinho quando está deitado com uma mulher.

Sua vida muda de rumo quando ele inesperadamente herda uma casa em Xangai deixada pela sua avó que nem ao menos ele tinha conhecido. Ele viaja para a China para vender a casa, mas quando o acordo para a venda da casa entra em colapso, ele percebe que precisa fazer algo de diferente na sua vida.

É quando ele conhece e se apaixona por Micki ( Kelly Hu), uma bela e sofisticada mulher chinesa, a qual o impacto é tão grande, que ele decide jogar tudo para o alto e começar uma nova vida em Xangai. Mas ele logo descobre que a verdadeira natureza de sua identidade não é tão fácil de ser descoberta. Nos Estados Unidos, sua aparência asiática é a sua característica essencial. Na China, a sua atitude e jeito americano define ele. Para encontrar a si mesmo, ele deve fazer as pazes com ambos aspectos de quem ele é.

Para David Ren, isto é obviamente uma história pessoal, enfatizando a regra de que os cineastas de primeira viagem estão em sua melhor forma quando fazem algo que vem do coração. O roteiro é bem escrito e evita erros comuns , não há complicações românticas artificiais e sem cenas constrangedoras em que as pessoas saem do personagem apenas para fazer rir. O filme tem algumas cenas cuidadosamente observadas: amigo de Liam (Joel Moore), ficando abatido depois de ter a coragem de abordar uma mulher, Liam escondendo as lágrimas após o sexo, e sua rejeição sutil de tentativas de Adelaide em contato íntimo ( não permitindo que ela beije-o na boca). Xangai é belamente fotografada, capturando não apenas o seu brilho, mas a sua energia incansável. Nova York não é a única cidade que nunca dorme.

Ken Leung é um ator veterano , já tendo participado em diversas produções , incluindo participação em X-Men 3, mas nunca teve um papel de destaque como esse, no qual ele é protagonista, sua atuação é muito boa, ora fazendo o personagem rabujento , ora fazendo o simpático de bom coração, mostrando também ter um ótimo timing para a comédia.

Eu não estou por dentro dos orçamentos dos filmes, mas Amor em Beverly Hills, que por sinal tem um péssimo título traduzido do original “Shanghai Kiss”, tem um olhar profissional que não se encontra nos filmes independentes que são lançados direto para vídeo. Ele também tem muito mais coração e cérebro do que várias grandes produções que saem no cinema. Amor em beverly Hills , é uma exceção e com certeza vale a conferida.

NOTA 4 ÓTIMO

domingo, 22 de agosto de 2010

" SALT"


Angelina Jolie tentou estabelecer sua imagem de heroína de ação com fitas como os dois “Lara Croft – Tomb Raider” e o filme de assalto “60 Segundos”, mas, a despeito de seu carisma, tais produções simplesmente não empolgavam muito. Daí veio romântica de ação “Sr. e Sra. Smith” e o eficiente “O Procurado” que finalmente cimentaram Jolie neste mundo tão masculino.

Depois das desastrosas adaptações de “Tomb Raider” para as telas, este “Salt” é a primeira vez que a atriz assume a posição de protagonista absoluta de uma fita de ação.


Dirigido pelo australiano Phillip Noyce,Salt é um filme de espionagem à moda antiga, contando até com uma boa e velha ameaça soviética, bem no viés dos filmes de Jack Ryan comandados pelo cineasta nos anos 1990.


Escrito por Kurt Wimmer (que cometeu os pavorosos “Código de Conduta” e “Ultravioleta”), o longa acompanha a agente da CIA Evelyn Salt (Jolie), uma espiã americana, casada e prestes a passar para o serviço burocrático que é acusada de ser uma agente infiltrada em uma conspiração soviética para matar o presidente russo em solo americano e desencadear a guerra para acabar com todas as guerras, sendo caçada por seus pares, incluindo seu melhor amigo, o agente Ted Winter (Liev Schreiber) e do implacável agente de contra-inteligência Peabody (Chiwetel Ejiofor).


E é só isso que pode ser dito sobre o filme sem entregar suas diversas viradas, que deixam o espectador interessado na trama. Aliás, um dos grandes méritos do filme é nos manter no escuro quanto aos pensamentos e intenções de sua protagonista.

Desde o início, quando o longa exibe seu letreiro inicial, o título nos é mostrado em duas fontes, uma mais comum e outra que nos remete diretamente ao construtivismo soviético. O roteiro de Wimmer tem essa interessante ideia de não jogar na cara do espectador quais são as verdadeiras intenções de Salt, nos colocando na posição de torcer por uma protagonista que pode, de fato, ser a vilã do filme.

É nisso que esta fita se diferencia de outras como “O Fugitivo”, uma de suas inspirações mais óbvias, na qual sabemos desde logo da inocência de seu protagonista. Além disso, o fato de contar com atores de calibre como Liev Schreiber e Chiwetel Ejiofor como antagonistas da personagem de Jolie contribui para que fiquemos antenados nos dois lados da caçada.


As cenas de ação são retratadas pelas câmeras da produção de maneira bastante compreensível, qualidade rara hoje em dia. Na maioria das sequências, não há um emprego absurdo de computação gráfica, algo também espantoso. A única exceção é uma perseguição que ocorre no fosso de um elevador, na qual os efeitos digitais surgem tão óbvios que chegam a doer nos olhos, se tratando (ainda bem) de uma exceção.

Angelina Jolie está bela e dúbia na fita, sendo uma perfeita heroína do gênero. Se o filme consegue convencer em suas diversas ambiguidades é justamente por conta de Jolie, que nos deixa atordoados com suas declarações desesperadas de inocência, ao mesmo tempo em que seus atos apontam para uma direção completamente oposta.

Vale ressaltar que, como todo filme de ação estrelado por mulheres, temos um certo apelo fetichista, algo escancarado pela cena em que Salt usa uma calcinha para cobrir uma câmera e pelo subsequente close nas pernas da protagonista quando esta se esconde dentro de um táxi. Não estou reclamando de um filme que explora a beleza de Angelina Jolie, mas meramente fazendo uma observação.

“Salt” pode não ser o mais original dos filmes, possuindo elementos do já citado “O Fugitivo”, muito da franquia “Bourne” e mais um bom bocado dos livros de Tom Clancy, mas é bastante divertido e pode dar margem para uma série razoável.


NOTA 3 BOM

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

" THE RUNAWAYS"


Com as ótimas performances de Kristen Stewart, Dakota Fanning e Michael Shannon, Filme baseado no livro Neon Angel.The Runaways conta sobre a história de uma banda de rock feita por adolescentes por volta de 1970. Kristen Stewart estrela como Joan Jett e Dakota Fanning é Cherie Currie, Michael Shannon como o excêntrico Kim Fowley, o homem que juntou The Runaways.


Embora com muita discussão The Runaways conta o que realmente aconteceu por volta dos anos 70, como uso de drogas e mostra o que aconteceu com a banda, o que sentiram, será um documentário da época. Stewart e Fanning realmente cantam no filme, e ambas se entregaram na performance.


O filme é de 1975 em Los Angeles, mostrando o que Joan Jett e Cherie Currie passaram em suas vidas.

Jett era uma solitária que tentava descobrir uma maneira de tocar guitarra, quando as mulheres não eram consideradas para serem membros de uma banda de rock. Ao mesmo tempo, Cherie Currie era uma aluna que idolatrava David Bowie e freqüentava os mesmos locais que Jett. Quando Joan Jett sai para um lugar, ela tem a idéia de montar uma banda de rock apenas com garotas e depois de alguns ensaios improvisados e audições, a banda The Runaways nasce.


Quando o grupo está se formando temos algumas cenas impressionantes de Michael Shannon como Kim Fowley. Para ajudar o grupo pronto e seguir caminho de ser uma estrela do rock, Fowley faz as meninas irem a um acampamento onde ensina-lhes notas. Lembre-se na época uma banda de rock só com garotas nunca tinha sido feita e Fowley percebe que ele tem um poder enorme de sucesso em suas mãos. Finalmente a banda sai para a estrada e vemos The Runaways se tornar o grande hit do momento.


A medida que a viagem se desenrola, as adolescentes começam a experimentar drogas, a sexualidade, e como sobreviver como uma banda, Cherie Currie vai longe demais em todos os sentidos.

Novamente, as performances são fantásticas, Kristen Stewart e Dakota Fanning realmente impressionam com seus retratos vivendo como astros do rock, apesar até mesmo da minha ligeira desconfiança.


O que eu realmente gostei no filme é que ele não toma o lado da história de The Runaways. A escritora e diretora Floria Sigismondi pinta um retrato realista de Los Angeles na época de 1975 e o que realmente aconteceu com Joan Jett e Cherie Currie em suas vidas. Veremos como cada um deles viveram e o que os reuniu. E depois que ficou famoso o que fez com que a indústria fonográfica, não fizesse um retrato de julgamento ou condenação. A história tem altos e baixos o suficiente para não precisar forçar a história como alguns cineastas poderiam ter feito.


Outra coisa sobre o filme é que o filme tem um grande elenco de apoio com Scout Taylor – Compton (Lita Ford), Alia Skawkat (Robin) e Stella Maeve (Sandy West), eles estão no segundo plano com apenas algumas cenas. Sigismondi centraliza na relação de Jett, Currie e Fowley.

É claro que Kristen Stewart e Dakota Fanning teriam que reviver a cena que geraram muitos rumores


Sim, o filme tem uma cena dessas, mas é feita com bom gosto. Sigismondi acha necessário mostrar que as duas tiveram uma noite juntas. Mas vai ser muito interessante ver o que os fãs de Crepúsculo vão pensar nesta cena, principalmente os fãs adolescentes de Stewart.

Minha grande questão é o que os pais vão fazer com os filhos que querem ver Kristen Stewart como Joan Jett? Mesmo que o filme não glorifique ou tolera qualquer ação questionável no filme, você vê Kristen Stewart e Dakota Fanning usando drogas, se beijando e andando com roupas nada tradicionais. The Runaways explora uma época diferente.


Em certo ponto o filme declina um pouco de ritmo, mas nada que chegue a estragar totalmente o filme, não é um filme ótimo , muito menos excelente , mas pode ser considerado um filme com um resultado satisfatório.

Vale a conferida, muito mais pela atuação das atrizes principais e quem sabe até mesmo reviver um pouco da época.


NOTA 3 BOM

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

" 2 DIAS EM PARIS"


Há muitos anos vemos Julie Delpy na tela do cinema, uma atriz européia que já participou de várias produções norte-americanas, e dizendo isso não quero parecer redundante já que essa é uma informação muito conhecida sobre a carreira dela, mas apenas mostrar que essa experiência lhe deu segurança suficiente para escrever e dirigir uma história como a de 2 Dias em Paris. Para quem não sabe essa é a primeira vez que Julie dirige um filme, mas ela já escreveu o roteiro de Antes do pôr-do-sol em parceria com Ethan Hawke e Richard Linklater. E falando nessa parceria, esse foi um filme que me agradou muito, tanto pelo ritmo dado à história quanto pelas interpretações, mas também pelos diálogos que fluíam como boas conversas em que o papo vai de problemas globais a historinhas da vida cotidiana.

Em 2007 tivemos também a estréia de Hawke na direção com Um Amor Jovem, e após assistir 2 Dias em Paris a impressão que tive foi a de que Antes do pôr-do-sol foi realmente construído numa mistura entre essas três sensibilidades, Linklater, Delpy e Hawke, já que as primeiras produções individuais dos dois atores trouxeram em si, cada uma a sua maneira, algumas características encontradas nesse projeto conjunto, que na época me passou a impressão de ser um teste de laboratório a respeito de uma idéia ainda em construção, e quem sabe mesmo não foi um aquecimento para Julie e Ethan?

A estrutura da narrativa é simples: todos os conflitos acabam surgindo devido ao choque de posturas entre Marion (Julie Delpy) uma fotógrafa francesa que vive em Nova Iorque, e seu namorado Jack (Adam Goldberg), um americano que é designer de interiores. E o filme é tão "sério" nesse embate travado entre os dois personagens, que logo na primeira aparição do casal isso sutilmente se evidencia através da composição da cena, quando vemos ambos deitados e vestindo camisetas pretas, sendo que a dela traz o desenho de um revólver amarelo apontado na direção do namorado, uma metáfora para o que veremos depois: uma disputa velada, menos para que eles se entendam do que para que um consiga trazer o outro para dentro de seu mundo.

Marion é a narradora e dessa vez eles estão no terreno dela, já que os dois moram juntos em Nova Iorque, o terreno de Jack. É a cidade de Paris, onde moram seus pais e amigos e onde ela conhece a língua, as comidas e as ruas, ou seja, um lugar onde ela entende como as coisas funcionam, os processos, os valores, o humor. E onde Jack está sensivelmente deslocado e inseguro e por não saber falar francês acaba desconfiado que algo possa ser falado a seu respeito, mas não tem a capacidade de compreender o que seria.

A metáfora que Delpy utiliza para evidenciar as diferentes maneiras como cada pessoa reconhece e estabelece suas relações com o mundo vem do fato da personagem ter um problema na retina, como pequenos buracos, que modificam a forma como ela enxerga as coisas. Um problema que foi detectado quando ela ainda era uma criança, sendo confundido por muitos com um tipo de retardamento ou autismo, e ao que sua mãe Anna (Marie Pillet) tratou lhe dando de presente uma câmera Polaroid. Assim ela poderia continuar perdida na observação de coisas pequenas sem necessariamente ficar parada durante horas em frente àquilo, podendo levar consigo uma imagem e observá-la sempre que quisesse. E quando ela nos conta sobre esse problema, termina a narração dizendo: “Sim, todo mundo vê o mundo literalmente diferente”. E ao redor disso que a história gira.

O casal faz um tour pela Europa, incluindo todos os programas clássicos que ela como européia já sabia de cor e conhecia muito bem, mas que para Jack era uma novidade, e de certa forma, inconveniente já que nada parecia de acordo com seus padrões. E antes da volta para os EUA, eles passariam dois dias em Paris. E a história faz da relação dos dois um estereótipo da convivência entre duas pessoas com sensibilidades diferentes. E mesmo tendo como foco um relacionamento amoroso, traz à tona as confusões possíveis numa situação de choque entre culturas, ou seja, utiliza um casal para tratar de várias discussões maiores: política, costumes, manias e vícios presentes em todas as sociedades sem que se saiba necessariamente se há alguém mais certo ou mais errado, mas ainda admitindo que cada um tem suas razões para ser como é, e que mesmo sendo diferentes as pessoas podem encontrar formas de se entender.

O filme é cheio de "coisinhas interessantes", como as piadinhas que Delpy inclui sobre o que há de ruim em ser um francês, os imigrantes em Paris, o machismo e a liberação sexual que vem de muitas décadas atrás. Tem a história de que a mãe de Marion já tenha dormido com Jim Morrison e do seu pai (Albert Delpy, pai da atriz/diretora) servindo coelho com cenouras para Jack.

Adam Goldberg parece tão bem nessa interpretação que não consegue passar desapercebido. Assim como o senhor Delpy rouba a cena em vários momentos e é sinceramente difícil saber se ele estava interpretando ou sendo apenas ele mesmo. Assim como Daniel Brühl (de Bastardos Inglórios) faz uma pontinha na pele de um personagem enigmático que dá conselhos a Jack sobre fast-foods e sobre amor.

Assim como disse de seu amigo Ethan Hawke, Julie Delpy não produziu o melhor filme de todos os tempos, mas foi muito competente na condução de sua história, merecendo uns créditos bônus pelo roteiro e os diálogos espertos e rápidos, estruturando a narrativa no momento presente já que fazia várias referências a discussões atuais, aproveitando para mostrar sua cultura até naquilo que ela menos gosta. O único escorregão foi o de inverter o papel e colocar o americano no papel de bobo, deixando para transformá-lo num personagem mais complexo só no final da trama.

Mas isso seguramente não desmerece o trabalho e graça do filme. Enfim, 2 Dias em Paris tem um ritmo muito agradável e é esperto e sensível, como Julie Delpy parece ser.

NOTA 3 BOM

terça-feira, 17 de agosto de 2010

" A ÚLTIMA MÚSICA"


Nicholas Sparks está ficando acostumado com as adaptações de seus romances para as telonas do cinema. Depois dos sucessos de Um Amor para Recordar (2002), Diário de uma Paixão (2004) e Querido John (2010), agora é a vez deste A Última Música, filme estilo sessão da tarde com aquelas batidas doses de lição de moral (prepare seu lenço, pois algumas lágrimas furtivas poderão vir a rolar) e com uma personagem principal chata como sua intérprete (a musa teen Miley Hannah Montana Cyrus), mas que é salvo pelas brilhantes atuações do pequeno Bobby Coleman e do sempre competente e eterno coadjuvante Greg Kinnear, de Melhor é Impossível (1997) e Pequena Miss Sunshine (2006).

Alguns atores, quando em início de carreira, tomam decisões artisticamente erradas. Uma atitude comum, já que no princípio o essencial é ganhar alguma visibilidade para, assim, ter o direito de optar por bons papéis. Miley Cyrus não está em início de carreira. Seu rosto e sua voz já estão mundialmente conhecidos entre o público teen e a indústria do entretenimento por conta do seriado Hannah Montana. Se formos considerar A Última Música sua primeira passagem real pelo cinema (este “se” é para lembrarmos que um dia houve o filme da telessérie que a tornou famosa), de mau gosto por personagens a atriz também não pode ser acusada. O que não significa, no entanto, que Cyrus esteja pronta; algo que, por sua vez, não queira dizer que o filme seja uma má ideia.


Na história, Miley Cyrus é Ronnie, uma adolescente com alguns problemas que, junto de seu irmão, vai passar o verão com o pai (Greg Kinnear – confortável em cena); este, divorciado da mãe dos garotos. Lá, ela precisa redescobrir os seus valores e “aturar” o amor de um pai que se arrepende amargamente de tê-los deixado. Uma narrativa cuja sinopse não poderia sugerir um sabor diferente do popular água-com-açúcar.


Escrito sob a fórmula básica de um drama fresco e leve (do tipo que até pode ser exibido naSessão da Tarde), A Última Música mescla acontecimentos típicos de roteiros pensados para gerar na tela um conflito familiar entre pais e filhos com as idas e vindas de um romance adolescente com final premeditado. Um ato considerável falho no trabalho com o roteiro, uma vez que compromete parte do desenvolvimento da história por toda a primeira metade do filme. Por vezes, um ou outro acontecimento se insere abruptamente para dar mais energia à trama, mas as conclusões rápidas destes percalços lhes dão ar de minoridades, se elegendo como subtramas que não tiveram fôlego nem para passar do primeiro estágio. Ao menos, poderiam servir como bons nós para fortalecer as ligações entre os personagens envolvidos, caso não fossem sempre direcionados para o casal formado por Miley e Liam Hemsworth que, à certa altura do campeonato, já estavam mais do que solidificados para a plateia.


Com toda uma proposta que indica total indisposição para mudar no futuro, A Última Música evolui e, se atentarmos para os seus motivos, até consegue um álibi para justificar o fraco – ou inexistente – desenvolvimento da primeira metade de projeção (ainda que não seja arrastada ou cansativa). Oras, Miley Cyrus não teria qualquer motivo para protagonizar um drama que não fosse chamar para os cinemas suas fãs adolescentes, cuja faixa etária geralmente não decola dos 13 anos. E, sendo fato consumado que este não é o gênero preferido por esta parcela do público, o mais adequado seria ganhá-lo, fazendo o possível para ele se sentir familiarizado nos primeiros passos da história. O que é devidamente posto em prática. Entram as birras com o pai, o galã descamisado pronto para se apaixonar pela garota novata e esquisita e um andar sempre cabisbaixo e autoprotetor. Conseguiu fazer a relação? As jovens sentadas diante da tela também. Nisto, estão prontas para absorver o que vem em seguida.


Mesmo com as escolhas da direção de Julie Anne Robinson para aliviar a carga emocional em momentos mais duros – para preservar o público a que se destina o filme –, que para os olhares mais exigentes podem significar verdadeiros escorregões, a trama ganha certa densidade. Pequena, mas ainda assim presente. Uma tropeçada apenas para Miley, que se destaca do restante do elenco por sua atuação oscilante. Firme em cenas leves ou em que precisa transmitir a frieza da personagem, a jovem não consegue atingir o grau de emoção necessário para fazer de suas lágrimas menos artificiais, demonstrando uma insegurança que não deve existir (a atriz já declarou estar ciente disto, o que é um ótimo começo). Aliás, a veia mais pulsante neste quesito é bombada pelo pequeno Bobby Coleman, o irmão caçula de Ronnie, muito mais desenvolto e preciso do que o casal principal, se somadas as suas capacidades.


Se A Última Música tem algum grande mérito – e realmente tem – ele não se ilustra em seu roteiro ou na maneira como ele é guiado e interpretado, mas sim no tema sugerido e nos valores plantados ao longo da história, que espelham aquilo que está presente (ou ao menos deveria) fora das telas. É insosso? É. Carente de apuro artístico? A julgar pelos atrativos comerciais em destaque, sem dúvida. Mas é um excelente exemplo de amor saudável, do tipo que não exige provações esdrúxulas e tampouco sustenta sacrifícios de estima e personalidade para concretizar uma relação. O filme consegue equilibrar bem momentos cômicos, românticos e dramáticos. Uma gama variada de emoções passará pelos corações da plateia, mas é bom ter em mente que A Última Música é mais uma adaptação da obra do escritor Nicholas Sparks (Querido John). Essa é a primeira vez que o Manuel Carlos dos best-sellers estadunidenses se envolve ativamente na adapatação de um de seus livros para o cinema. Como é de se esperar, o final dramático e lacrimoso está lá para que seus fãs apreciarem.

NOTA 3 BOM