quinta-feira, 11 de novembro de 2010

"SCOTT PILGRIM CONTRA O MUNDO"


Edgar Wright, o escritor britânico e diretor de filmes de sucesso como Todo mundo quase morto e Chumbo grosso, deixou para trás seu habitual parceiro de criação Simon Pegg para ir sozinho em busca do sucesso em Hollywood. O resultado é um filme original, engraçado e inteligente que é um verdadeiro deleite aos sentidos.

"Scott Pilgrim contra o mundo" é como se fosse os elementos da cultura jovem americana amontoados em um único pacote ou seja, onde o supérfluo domina domina em todos os meios de comunicação: É sobre amor, da alienação, videogames, quadrinhos, acorde de guitarra de indie rock / punk, mensagem sms, empregos sem futuro e dos ex-namorados malévolos. Principalmente videogames e ex-namorados malévolos.

O que fazer quando a garota de seus sonhos tem problemas com os ex-namorados? Se você for um universitário, rockeiro ou nerd, nada mais natural do que se tornar um super herói e combater todos os "exs". Em Scott Pilgrim contra o Mundo, encontramos nosso herói na honrosa missão de combater os sete ex- namorados de sua amada - Ramona Flowers, é em torno disso que a trama gira ou melhor dizendo, o jogo. Baseado na história em quadrinhos “Scott Pilgrim Volume 1: Scott Pilgrim´s Precious Little Life” de Byran Lee O´Malley, o filme tenta reproduzir um mundo cheio de loucuras na telona. Scott Pilgrim tem 22 anos, uma banda de rock e namora a garota mais cobiçada do colégio, tudo em sua vida está uma maravilha até ele mergulhar em uma aventura sem limites, repleta de mulheres, música e adrenalina. Quando ele percebe, tudo está de cabeça para baixo e o que era real se tornou parte da fantasia.

Michael Cera, o protagonista do filme, firma definitivamente o seu lugar no mundo do cinema , como o ator de um papel só. De certo modo, isso pode ser muito bom por um lado, já que Scott e Cera são a mesma pessoa e sem ele, com certeza o longa não sairia do papel, porém é ruim para o ator Cera, já que hoje já não tenho mais dúvidas da limitação desse ator, já que repetitivamente ele interpreta o mesmo papel nos filmes, no filme em questão ele está perfeito já que a impressão que fica é que ele não precisou interpretar para realizar o filme. Simplesmente foi ele mesmo.

O roteiro do mais bem humorado inglês a surgir nos últimos tempos, nos leva de maneira brilhante a epopéica aventura do jovem rumo ao autoconhecimento. Cada personagem do cotidiano de Pilgrim pode ser encarado como um estereótipo da cultura de massa, como também cada ex namorado representa metaforicamente as deficiências e dificuldades do personagem que impedem ele de evoluir, amadurecer ou até mesmo passar de fase como num videogame.

Wright mantém na direção do filme a mesma pegada, elevando o filme ao status de ser talvez o filme mais cool e divertido do ano, não há uma cena sequer no filme que não tenha um potencial cômico ou mesmo algo que esteja acontecendo de interessante no fundo , como exemplo, as onomotopéais, ou os detalhes e informação de cada personagem que vão surgindo ao longo do filme.
Todos os atores estão muito bem no filme, valendo recordar a participação do colega de quarto gay interpretado por Kieran Culkin, Brandon Routh(o último super homem do cinema) e Chris Evans( o tocha humana e esperado capitão América) como uns dos ex namorados de Ramona, não esquecendo também um dos meus jovens atores preferidos Jason Schwartzman em mais uma ótima atuação.

A edição é primorosa e os efeitos especiais fantásticos, o mundo dos nerds, batalha de bandas de rock, muito videogame e quadrinhos e é claro toda a cultura e contra cultura jovem americana embalada num filme filme irretocável e que desde já pode ser considerado como um filme que vai marcar a história do cinema.

NOTA 5 EXCELENTE

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

"MINHAS MÃES E MEU PAI"


Toda família tem seus problemas, e não há dúvidas também que os pais sempre querem acertar com educação dos seus filhos. Em Minhas mães e meu pai (The Kids Are All Right) a única diferença é que os pais na verdade é um casal homossexual , duas lésbicas, mas elas estão lutando com os mesmos problemas que o resto do mundo para criar seus filhos. Questões como a confiança, respeito, limites, como o amor pode resistir por bons e maus momentos e como explicar aos seus filhos adolescentes, por que você está ficando excitada por pornô gay masculino são tratadas nesse filme.

Essa última não pode ser lá tão generalizada, mas este filme inteligente enfoca sobre encontrar as verdades universais em circunstâncias específicas. É perspicaz, espirituoso e bem encenada por um elenco de primeira linha que inclui Annette Bening, Julianne Moore e Mark Ruffalo. Minhas mães e meu pai inicialmente parece mostrar uma intenção um pouco em trazer o espectador médio fora de sua zona de conforto. Ele logo se instala em um conto imensamente agradável das famílias modernas, as relações complexas e à noção de que toda ação tem uma conseqüência.

A doutora Nic (Bening) e sua parceira Jules ( Moore) estão juntas há 20 anos. Elas criaram duas crianças de uma maneira que faria qualquer pai orgulhoso. Joni (Mia Wasikowska) tem 17 anos, inteligente e está para começar na faculdade. Meio irmão Laser (Josh Hutcherson) é um verdadeiro atleta de 15 anos de idade. Ambos são responsáveis ela um pouco mais do que ele, respeitosos e começam a sair da coleira dos pais, mas, como o título sugere, as crianças estão bem.
Na verdade são os adultos que estão tendo problemas. Nic é uma enrolada, controladora que não parece ter encontrado um copo de vinho tinto que ela não gostou. Jules tardiamente tentar fugir da longa sombra da domesticidade e, finalmente, arrancar com a sua carreira como uma arquiteta. Ela tem claramente alguns arrependimentos sobre o que poderia ter sido.

Tudo muda quando Laser diz que gostaria de conhecer seu pai biológico (ou doador de esperma).
O homem em questão é Paul (Ruffalo), um charmoso e sensível, dono de restaurante que anda em torno da cidade em uma moto. Laser acha que ele é um cara legal. Joni parece ter encontrado uma figura paterna. Nic sente ele como apenas uma ameaça à sua estabilidade, enquanto Jules não tem certeza do que ela encontrou neste cara atraente que parece estar dando bastante atenção a ela.

Paul é o intruso clássico que perturba a ordem natural. Ele parte corações e sempre desafia a complacência, mas permanece sempre um simpático personagem na história.

O roteiro é muito bem escrito pela diretora Lisa Cholodenko e Stuart Blumberg e da a sensação de ser elaborado a partir de experiências da vida real. Ruffalo é uma alegria como o solteirão despreocupado, tranquilão e sempre de bom humor exalando a sua masculinidade. Moore traz apenas o suficiente para mostrar e lapidar o desespero da sua personagem, sugerindo uma frustração que tem sido alimentada ao longo dos anos.

Bening nos entrega mais uma de suas grandes performances no ano, ela que não faz nada para disfarçar o fato de que ela tem 52 anos e consegue captar perfeitamente os dentes cerrados e olhar de contralodora que em certo momento do filme, vê que a sua vida simplesmente não podem ser controlada da maneira que ela gostaria. Meu único descontentamento com o filme, é em relação ao final destinado ao personagem de Mark Ruffalo, pode ser corporativismo entre homens ou não , mas não fiquei satisfeito.

No final de tudo, Minhas mães e meu pai (The Kids Are All Right) é vivamente recomendado para qualquer pessoa em busca de entretenimento inteligente e adulto, com certeza um dos melhores filmes do ano.

NOTA 5 EXCELENTE

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

"ATRAÇÃO PERIGOSA"


Atração Perigosa (The Town , EUA , 2010) é o segundo filme dirigido pelo ator Ben Affleck, que desta vez também é o protagonista principal e um dos roteiristas. Baseado no livro “O Príncipe dos Ladrões“, de Chuck Hogan, este longa está sendo considerado um retorno muito bem-sucedido, principalmente como diretor, em sua carreira cinematográfica.

Doug MacRay (Ben Affleck) é o líder de um grupo de assaltantes de banco, da famosa cidade de Charlestown, conhecida por abrigar um grande número desse tipo de ladrão. Durante um assalto, alguém aciona o alarme e eles mudam totalmente os planos decidindo levar a gerente, Claire Keesey (Rebecca Hall), como refém. Após libertá-la, descobrem que ela mora na mesma cidade e, como medida de segurança, Doug começa a segui-la, mas logo em seguida se vê apaixonado por ela.

Desse modo, a história toma novo rumo: como tornar viável o romance entre duas pessoas com estilos de vida tão diferentes? Atração Perigosa, então, torna-se o conflito de um personagem que pretende alterar seu modo de vida, mas, ao mesmo tempo, não quer trair a amizade dos amigos, principalmente por dívidas passadas. Até aí reina a impressão da obviedade e essa tendência prossegue até o final, principalmente com as supostas sacadas inteligentes que só repetem velhas fórmulas.

Aqui temos todos os elementos de um filme de assalto misturado com romance: o bandido se apaixona por uma mulher que estava envolvida num roubo, ele quer largar sua antiga vida para começar uma nova com ela, mas para isso precisa praticar um último ato antes da redenção final. A grande diferença de Atração Perigosa é que não há toda aquela sessão explicando todo o planejamento dos assaltos, como em Onze Homens e um Segredo e afins, criando uma expectativa maior do que poderá acontecer. Além disso, o filme tem como mérito a humanização dos personagens, os moradores da cidadezinha parecem verdadeiros caipiras modernos americanos (será que o dente quebrado do Affleck era parte da “maquiagem”?).

Apesar dele se esforçar, é difícil se convencer com a atuação de Ben Aflleck, principalmente como um “brutamontes” anti-herói quando se está acostumado a ver ele em comédias “bonitinhas”. Entretanto, Atração Perigosa tem bons momentos dentro de suas fraquezas. Os atores tornam o enredo digno e são eles os responsáveis por segurar a atenção do público em relação ao que é contado. Jeremy Renner destaca-se ao interpretar um tipo comum que facilmente poderia ser retratado pela caricatura. Rebecca Hall consegue dar graça a uma personagem sem sal e sem profundidade. Se Affleck já conseguiu ver a atriz de seu filme anterior ser indicada ao Oscar, Amy Ryan por Medo da Verdade (Gone Baby Gone, 2007), talvez a condução de atores seja seu maior talento atrás das câmeras.

o roteiro se aproveita de momentos de distração dos personagens para envolver sub-tramas (como a busca de Doug pela mãe que foi embora e os conflitos que justificam a amizade de Doug e seu companheiro de crime Jem (Renner)). Outro destaque fica por conta das realistas cenas de ação, especialmente as de perseguição e tiroteios.

Um ponto bem interessante em Atração Perigosa é a enfatização de que, não importa quão seguro e planejado seja um sistema de segurança, o ponto mais fraco dele sempre será o fator humano. De que adianta uma porta super especial que só abre com chaves muito específicas, se a família de quem tem a chave é ameaçada e na mesma hora o seu detentor abre a porta?

Apesar de Atração Perigosa não possuir nada de inovador, além de ser bastante previsível, consegue manter a atenção do expectador. Atração Perigosa não funciona e nem tenta funcionar como uma crítica socialista ou moralista, o máximo que faz é nos levar ao seguinte dilema: "Eu não deveria estar torcendo para os policiais?".
No fim, é mais um ótimo filme de polícia e ladrão que consegue entreter - assim como os paralelos "Caçadores de emoção", e o já clássico “Fogo contra fogo” de Michael Mann.

NOTA 4 ÓTIMO

A VIDA E A MORTE DE CHARLIE


Charlie St. Cloud é um jovem rapaz que sofre pela morte de Sam, seu irmão caçula, num acidente de carro pelo qual sente-se responsável. A dor é tanta que ele vai trabalhar como coveiro justamente no cemitério em que o irmão está enterrado. É assim que Charlie faz um pacto com Sam, podendo não apenas vê-lo mas também passar as noites conversando com ele. Até que um dia uma garota entra na vida de Charlie.

Zac Efron decidiu sair do elenco da refilmagem de “Footloose”, dando preferência a este drama. Esta escolha já mostra certa inteligência, quando ele se dispõe a desistir de um projeto de lucro fácil e prioriza um filme com potencial para somar em seu conjunto de obra. Ponto para ele!

O grande problema é que mesmo com claros potenciais, a obra não se sustenta! Além de não oferecer nada de novo em originalidade ou entretenimento, peca por excesso de melodrama e nenhum aprofundamento nos personagens.

Efron vive Charlie St. Cloud, um jovem que encontra dificuldades em superar a morte de seu irmão mais novo. Como a relação dos dois era muito próxima, ele decide arrumar um emprego como zelador no cemitério em que ele está enterrado. Aparentemente um roteiro típico de Nicholas Sparks, porém sem sua competência. Craig Pearce e Lewis Colick não conseguem tornar o livro original de Ben Sherwood algo visualmente interessante.

A direção de Burr Steers mesmo que sem nenhuma personalidade, demonstra-se funcional. Em alguns momentos nota-se o princípio de algo engenhoso, porém fica apenas na promessa. Algo curioso também são as pequenas participações de Kim Basinger e Ray Liotta, com a participação de Basinger que interpreta a mãe de Efron na história, em nenhum momento sendo explicada o por que do súbito desaparecimento da sua personagem na trama, Ray liotta até tem uma funcionalidade para a trama, mas mesmo assim é bem rapidinha a sua aparição também.

Vale um pouco pela química do casal: Efron e Amanda Crew (Tess Carroll) e por algumas boas intenções, mesmo que o ritmo excessivamente lento atrapalhe na maior parte do tempo.

NOTA 2 REGULAR

"TROPA DE ELITE 2"


Alguns homens nascem apenas para a guerra. Roberto Nascimento, o já icônico personagem vivido por Wagner Moura, é uma dessas pessoas. No final de “Tropa de Elite”, Nascimento fora abandonado por sua esposa grávida, o que lhe desmotivou da ideia de sair do Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar (BOPE) do Rio de Janeiro. Anos se passam e o agora Coronel Nascimento ressurge para o público neste “Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro”.

Esta sequência, tal qual o original, tem em seu leme o diretor José Padilha, que escreveu o roteiro do longa ao lado de Bráulio Mantovani. A dupla, de maneira inteligentíssima, traz um exercício de metalinguagem como pontapé inicial do filme. Após uma ação do BOPE no presídio de Bangu I que trouxe graves repercussões políticas, os dois líderes do batalhão, o Coronel Nascimento e o Capitão Mathias (André Ramiro) tiveram “punições” diferentes. Nascimento foi elevado (tal como na realidade) à posição de herói por sua resposta firme (para não dizer excessiva) junto aos criminosos, assumindo o cargo de Subsecretário de Segurança Pública. Já Mathias é usado como bode expiatório pelo governo e expulso em desonra do BOPE.

Na posição ideal para conseguir travar sua luta contra o tráfico de drogas, Nascimento descobre que a situação não é tão simples quanto ele pensava, percebendo que as raízes da corrupção são bem mais profundas do que meros policiais subornados por traficantes. Além de encarar um inimigo que parece ser onipotente, o Coronel ainda tem de encarar a própria solidão, encontrando-se afastado do filho e vendo sua família sendo chefiada pelo ativista político Fraga (Irandhir Santos), seu maior crítico público. Os desafios enfrentados por Nascimento convergem de maneira explosiva em um conflito que mudará toda a percepção de realidade do personagem.

Interessante notar que Padilha pega todas as crenças e certezas que Nascimento tinha no primeiro filme e as desconstrói de maneira brilhante aqui. Em dado momento, Nascimento imagina as consequências de seu plano para a segurança pública, apenas para depois a audiência compreender, com a ajuda do próprio personagem, que nada do que fora planejado realmente aconteceu. Deste modo, a continuação não funciona apenas como um mero desdobramento dos temas propostos na primeira fita, mas como uma evolução daquele longa, mostrando que a resposta meramente coerciva para o problema da violência funciona tão bem quanto um band-aid para uma perna gangrenada.

Diga-se de passagem, a produção é tão sutil quanto um rolo compressor ao mostrar algumas de suas facetas. Sua violência é tão explícita quanto a hipocrisia política de seus “vilões”, sendo difícil saber qual das duas provoca mais revolta e asco junto ao público. Em um momento marcante, Nascimento surra sem dó ou piedade um político corrupto. Essa falta de sutileza merece ser saudada, pois a fita transmite, quão grave e assustadora é a situação nada fictícia que é mostrada.

O elenco é simplesmente magnífico. Wagner Moura entrega uma das performances mais arrebatadoras que já tive o prazer de assistir, com o Coronel Nascimento revelando a cada instante sua frustração perante seu verdadeiro inimigo. Ora, Nascimento é um homem que nasceu para a luta, tanto que os momentos de ternura e de diálogo que possui junto ao filho são em um tatame de jiu-jítsu. Colocá-lo em meio ao território inimigo completamente fora de seu terreno de ação foi crucial para nos mostrar um lado mais frágil daquele homem e fazê-lo rever suas crenças.

Enquanto no primeiro longa o Nascimento que víamos na farda preta era um leão altivo, cujos conflitos psicológicos irromperam quando da gravidez de sua esposa, todas as cenas que retratam o personagem de terno e gravata nesta continuação mostram um homem apequenado, embora não pare de lutar contra a sujeira ao seu redor, algo retratado por Moura na postura física de seu personagem e do cansaço em sua voz. A evolução de Nascimento dialoga diretamente com o clássico policial “Serpico”, inclusive na desconstrução de crenças dos protagonistas de cada produção. Acreditem, Wagner Moura merece a comparação com Al Pacino.

Irandhir Santos foi um verdadeiro achado para o papel de Fraga. Com um personagem tão forte quanto Nascimento do outro lado do espectro, seria muito fácil transformar um ativista social em uma figura caricata, mas Fraga vai além de ser apenas um contraponto inteligente ao Coronel. O respeito mútuo que nasce entre os dois homens também advém de um arco narrativo que é bem explorado por Santos para apresentar diferentes camadas ao seu personagem, como o ciúme que sente de sua família.
André Ramiro aparece pouco, mas aparece bem, de volta ao papel de Mathias, uma das peças cruciais no verdadeiro jogo de xadrez que é esta película. Ramiro possui duas cenas em especial (ambas ao lado de Wagner Moura) em que o ator se apresenta no mesmo nível que Moura, mostrando que Mathias está longe de ser aquele rapaz idealista do começo do primeiro filme.

Outro regresso da fita original, Milhem Cortaz diverte (e enoja) como o covarde e corrupto Coronel Fábio. Falando em figuras detestáveis e cômicas, André Mattos dá um show como um demagogo apresentador de programa policial sensacionalista que se torna um político hipócrita. Sandro Rocha, que na primeira produção teve um papel pequeno, aqui retorna como o Policial Rocha, grande antagonista de Nascimento e líder das milícias, nova facção criminosa que se apresenta. Perigoso, corrupto e sanguinário, Rocha é um necessário vilão “clássico” que aparece em um longa onde o próprio sistema é o inimigo, Sandro Rocha foi a grande revelação do filme , roubando todas as cenas em que aparece na película.

Tecnicamente, o longa é perfeito, com Padilha trabalhando com a mesma equipe do original. Montado por Daniel Rezende de modo que se torna impossível tirar os olhos da tela um momento sequer, “Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro” hipnotiza por seu ritmo empolgante e pelo trabalho fenomenal de câmera realizado em suas cenas de ação, que remete às produções de Paul Greengrass, principalmente ao recente “Zona Verde” (aliás, reparem na “Operação Iraque” que acontece em dado momento do filme).
A fotografia desempenha um papel ímpar aqui, com Lula de Carvalho utilizando um jogo de luz e sombras não apenas para capturar a ação da melhor maneira possível, mas também para capturar os sentimentos dos personagens. Note, por exemplo, o momento em que Nascimento chega em casa após a ação em Bangu I, para seu sombrio apartamento e compare com o ambiente repleto de iluminação, com cores quentes e acolhedoras onde sua família e Fraga vivem.

A evolução mostrada nos temas e na técnica do primeiro filme para este não desmerece de modo nenhum o longa original, que ganha ainda mais força ainda com o crescimento pessoal de Nascimento na sequência. Mais do que uma sucessão de tiros e frases de efeito, “Tropa de Elite 2 – O Inimigo Agora é Outro” é uma obra densa e destemida, que não se furta em expor os problemas de uma sociedade doente e de um sistema político moribundo. Recomendado.

NOTA 5 EXCELENTE

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"WALL STREET O DINHEIRO NUNCA DORME"


A ganância é uma coisa boa? A questão é relevante, pois afinal é ela (a ganância) que faz o governo de um país procurar melhorias para seu povo, que faz o homem comum evoluir como ser humano, que incentiva você a não ficar parado no mesmo lugar. O maior problema é a linha tênue entre a ganância e a falta de ética e moral, duas virtudes que parecem não existir na cartilha dos investidores milionários.

Quem já assistiu a “Wall Street: Poder e Cobiça”, viu uma das melhores atuações de Michael Douglas, que na época levou o Oscar para casa. O personagem Gordon Gekko é ironicamente cativante, com sua índole desprezível e sua lábia sociopata. Mas ele pagou o preço por suas fraudes e lavagens de dinheiro, e acabou preso, servindo de exemplo para os capitalistas selvagens que transitam em seus helicópteros por Nova York. Apenas em 2001 ele foi solto, sem muito dinheiro no bolso, barba por fazer e um celular último modelo de 1987, pesando dois quilos no mínimo.

Avançando no tempo, mais precisamente em 2008, somos apresentados a Jake Moore (Shia Labeouf), jovem estereótipo de Wall Street que, apesar de sua vontade de fazer fortuna, é um idealista dos investimentos em energia limpa e sustentável, atitude que talvez seja o único motivo plausível do envolvimento com Winnie (Carey Mulligan), filha de Gekko, que despreza o pai e tudo que o rodeia. Ela, também uma idealista, trabalha fortemente com seu site ativista, divulgando verdades inconvenientes mundo afora.

Jake trabalha apostando em mercados financeiros na renomada Keller Zabel, que aparentemente passa por uma crise. Como o mercado não aposta em investimentos ”aparentemente” confiáveis, o preço das ações da empresa despenca e Lois Zabel (Frank Langella), que comanda toda a bagunça, se reúne com o Banco Central Americano para tentar manter-se em pé. Dentro de um meio movido por interesses e rinchas antigas, Zabel é praticamente apunhalado na reunião, tendo sua empresa comprada por seu inimigo Bretton James (Josh Brolin), do banco de investimentos Churcill Schwartz, a preço de banana.

Gekko sabe tudo que se passa por trás da economia, entre problemas e falcatruas, apunhaladas e chantagens, e Jake, como pupilo de Zabel, quer ir a fundo no assunto e descobrir o que aconteceu realmente. Ele então se aproxima do sogro em busca de “consultoria” e em troca promete tentar aproximar Gekko de sua filha. Uma troca “aparentemente” segura.

Entre muitas informações que estouram como “bolhas”, “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” é um bom filme. Usando como pano de fundo toda a agressividade velada de Wall Street, o roteiro conta a história de um homem que busca sua redenção, tentando voltar aos negócios e se aproximar de sua única filha, que o odeia e o culpa pela morte do irmão, viciado em drogas. É claro que Gekko mudou, mas não o suficiente, para nosso alívio.

Oliver Stone dirige esta sequência com muita atenção aos detalhes, fazendo ligações diretas ao seu primeiro filme, fato que pode ser observado já na abertura dos créditos. O destaque vai com certeza para a edição contemporânea e criativa, que traz os colossais prédios de Nova York formando gráficos financeiros, e por aí vai.

Utilizando do humor de forma inteligente, a obra também é recheada de referências, como a participação de Bud Fox, interpretado por Charlie Sheen. Só de aparecer o público já cai na gargalhada, pois o ator mais parece estar a caminho de filmar algum episódio de “Two and a Half Man”, com um sorriso sacana no rosto, acompanhado de duas lindas garotas.

Um dos pontos que deixa a desejar é o drama entre o pai Gekko e a filha Winnie. Carey Mulligan, que já provou ser uma excelente atriz com sua interpretação em “Educação”, parece meio desconfortável no papel da ressentida filha, que odeia, mas se rende facilmente aos argumentos do pai, sendo que no final sua personalidade parece forçada e seu texto também não ajuda. O resto do elenco se sai bem melhor. Shia Labeouf, que ainda paga o preço de ter vendido sua alma ao Michael Bay, é um bom ator, que trabalha com humildade seu Jake Moore, não entregando um rapaz sabe-tudo e arrogante, inteligente sim, mais ainda com muito a apreender.

Michael Douglas não consegue repetir o êxito total de seu primeiro Gekko, mas com um personagem desses fica difícil errar. Talvez Douglas tenha ficado menos inescrupuloso com o passar dos anos, assim como seu personagem, mas no geral, suas tramóias continuam dignas de mestre. Temos ainda Josh Brolin como Bretton James. O ator, que já trabalhou com Stone em“W.” (obra que ainda não deu as caras no Brasil), está muito bem e mostra confiança como um perfeito cretino engravatado. Destaque para Frank Langella com sua pequena e excelente participação como Lois Zabel. Susan Sarandon também aparece como a mãe de Jake, mas a personagem acaba sendo pouquíssimo explorada.

“Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” não supera seu antecessor, mas funciona. Com uma trama elaborada, que traz a bolha financeira como personagem importante, o filme derrapa no drama, mas convence na dinâmica e fluidez do enredo geral. Com boas interpretações, uma direção segura e edição competente, a obra agrada , e é um prato cheio aos interessados pelo tema. A ganância é uma coisa boa? Assista e tire suas conclusões.

NOTA 3 BOM

"HOMENS EM FÚRIA"


Em seu trabalho anterior com Edward Norton, o diretor John Curran entregou o romance chamado “O Despertar de Uma Paixão”. Repetindo a parceria com o ator, Curran apresenta ao público este “Homens em Fúria”, fita que tenciona ser uma parábola sobre o direito que temos de julgar os outros, mas acaba sendo engolido por suas próprias pretensões.

O personagem principal é Jack (Robert De Niro), agente penitenciário cuja função é avaliar o comportamento dos presos e recomendá-los ou não para condicional. O público já é levado a sentir asco do protagonista pelo fato do longa mostrá-lo, em sua primeira cena, cometendo um dos piores atos de chantagem que posso conceber. Anos mais tarde, Jack e sua esposa Madelyn (Frances Conroy) vivem uma vida miserável, pontuada pelo tédio e pelo desespero silencioso.

Prestes a se aposentar, Jack é designado para avaliar o caso de Stone (Norton), detento acusado de cumplicidade no assassinato dos próprios avós. Desesperado para sair dali, Stone pede para que sua esposa Lucetta (Milla Jovovich) o ajude a convencer Jack a lhe dar um parecer favorável. A partir daí, começa um jogo perigoso entre os três, que começam a revelar suas verdadeiras faces.

Jack talvez seja o personagem mais detestável da carreira de Robert De Niro. Ao longo de décadas, vimos o veterano ator encarnar figuras complexas e de moral mais do que duvidosa, como psicopatas, ladrões, assassinos… Mas Jack é um homem extremamente mesquinho e egoísta, que esconde tudo isso por trás de uma fachada de religiosidade, algo que é extremamente corriqueiro, o que o torna, paradoxalmente, ainda mais assustador. Sem dúvida este é o melhor trabalho de Robert De Niro como ator desde sua participação no fantasioso Stardust.

Ao invés de investir nas características palpáveis dos personagens, o roteiro de Angus MacLachlan se perde em psicologia de botequim e retóricas religiosas que simplesmente não chegam a lugar nenhum, retratadas por sequências longas e morosas pelo cineasta John Curran, com o diretor simplesmente não conseguindo imprimir ritmo algum à trama.

Em contrapartida, o elenco está ótimo, com o quarteto de atores entregando performances competentes. Embora o filme pertença a De Niro, Edward Norton também não fica atrás do colega, criando uma persona completa em Stone. Os trejeitos e dicção criados pelo ator para o preso, que se modificam com o passar do tempo, combinam perfeitamente com o personagem, em um soberbo trabalho de caracterização realizado pelo ator. Interpretações de tal calibre, aliás, já são rotina para Norton.

Milla Jovovich surge sedutora e enigmática como nunca, sendo surpreendente o seu trabalho aqui, considerando suas já conhecidas limitações como atriz. Após anos vivendo apenas heroínas de ação, chega a ser incrível ver a bela ucraniana se arriscando em uma figura tão complicada quanto Lucetta que, graças à atriz, possui um ar que lembra as antigas femme fatales.

Frances Conroy tem a tarefa mais complicada da empreitada, conseguindo exprimir todo o desespero de sua personagem mesmo com pouquíssimos diálogos. Em meros momentos, o olhar de sua Madelyn nos revela uma mulher à beira de um precipício, algo que não só é comovente para o público como também nos ajuda a perceber quão nocivo Jack é para aquela pobre pessoa.

É o elenco que consegue fazer com que o longa se sustente. O texto pretensioso de MacLachlan aliado a uma direção pouco inspirada de Curran simplesmente impede que nos aprofundemos naquele mundo e naqueles personagens. Existem alguns momentos fortes, como o assassinato na prisão, mas não há uma coesão entre eles, algo que prenda o espectador na cadeira entre os diálogos tensos entre aqueles personagens.

Curran flerta com o cinema noir em várias sequências, nos poucos momentos em que o filme dá um passo a mais rumo ao espectador, principalmente nas cenas envolvendo Jack e Lucetta. Sem a imersão do público naquele universo, temos apenas atores talentosos em cena representando personagens, que pouco reconhecemos como seres humanos. Um maior investimento na pergunta feita por Stone à Jack (“quem é você para me julgar?”) talvez conseguisse trazer mais humanidade ao filme.

Infelizmente, “Homens em Fúria” desperdiça o ótimo trabalho feito por Norton, De Niro, Jovovich e Conroy em um longa apenas mediano.

NOTA 3 BOM