quarta-feira, 27 de outubro de 2010

"WALL STREET O DINHEIRO NUNCA DORME"


A ganância é uma coisa boa? A questão é relevante, pois afinal é ela (a ganância) que faz o governo de um país procurar melhorias para seu povo, que faz o homem comum evoluir como ser humano, que incentiva você a não ficar parado no mesmo lugar. O maior problema é a linha tênue entre a ganância e a falta de ética e moral, duas virtudes que parecem não existir na cartilha dos investidores milionários.

Quem já assistiu a “Wall Street: Poder e Cobiça”, viu uma das melhores atuações de Michael Douglas, que na época levou o Oscar para casa. O personagem Gordon Gekko é ironicamente cativante, com sua índole desprezível e sua lábia sociopata. Mas ele pagou o preço por suas fraudes e lavagens de dinheiro, e acabou preso, servindo de exemplo para os capitalistas selvagens que transitam em seus helicópteros por Nova York. Apenas em 2001 ele foi solto, sem muito dinheiro no bolso, barba por fazer e um celular último modelo de 1987, pesando dois quilos no mínimo.

Avançando no tempo, mais precisamente em 2008, somos apresentados a Jake Moore (Shia Labeouf), jovem estereótipo de Wall Street que, apesar de sua vontade de fazer fortuna, é um idealista dos investimentos em energia limpa e sustentável, atitude que talvez seja o único motivo plausível do envolvimento com Winnie (Carey Mulligan), filha de Gekko, que despreza o pai e tudo que o rodeia. Ela, também uma idealista, trabalha fortemente com seu site ativista, divulgando verdades inconvenientes mundo afora.

Jake trabalha apostando em mercados financeiros na renomada Keller Zabel, que aparentemente passa por uma crise. Como o mercado não aposta em investimentos ”aparentemente” confiáveis, o preço das ações da empresa despenca e Lois Zabel (Frank Langella), que comanda toda a bagunça, se reúne com o Banco Central Americano para tentar manter-se em pé. Dentro de um meio movido por interesses e rinchas antigas, Zabel é praticamente apunhalado na reunião, tendo sua empresa comprada por seu inimigo Bretton James (Josh Brolin), do banco de investimentos Churcill Schwartz, a preço de banana.

Gekko sabe tudo que se passa por trás da economia, entre problemas e falcatruas, apunhaladas e chantagens, e Jake, como pupilo de Zabel, quer ir a fundo no assunto e descobrir o que aconteceu realmente. Ele então se aproxima do sogro em busca de “consultoria” e em troca promete tentar aproximar Gekko de sua filha. Uma troca “aparentemente” segura.

Entre muitas informações que estouram como “bolhas”, “Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” é um bom filme. Usando como pano de fundo toda a agressividade velada de Wall Street, o roteiro conta a história de um homem que busca sua redenção, tentando voltar aos negócios e se aproximar de sua única filha, que o odeia e o culpa pela morte do irmão, viciado em drogas. É claro que Gekko mudou, mas não o suficiente, para nosso alívio.

Oliver Stone dirige esta sequência com muita atenção aos detalhes, fazendo ligações diretas ao seu primeiro filme, fato que pode ser observado já na abertura dos créditos. O destaque vai com certeza para a edição contemporânea e criativa, que traz os colossais prédios de Nova York formando gráficos financeiros, e por aí vai.

Utilizando do humor de forma inteligente, a obra também é recheada de referências, como a participação de Bud Fox, interpretado por Charlie Sheen. Só de aparecer o público já cai na gargalhada, pois o ator mais parece estar a caminho de filmar algum episódio de “Two and a Half Man”, com um sorriso sacana no rosto, acompanhado de duas lindas garotas.

Um dos pontos que deixa a desejar é o drama entre o pai Gekko e a filha Winnie. Carey Mulligan, que já provou ser uma excelente atriz com sua interpretação em “Educação”, parece meio desconfortável no papel da ressentida filha, que odeia, mas se rende facilmente aos argumentos do pai, sendo que no final sua personalidade parece forçada e seu texto também não ajuda. O resto do elenco se sai bem melhor. Shia Labeouf, que ainda paga o preço de ter vendido sua alma ao Michael Bay, é um bom ator, que trabalha com humildade seu Jake Moore, não entregando um rapaz sabe-tudo e arrogante, inteligente sim, mais ainda com muito a apreender.

Michael Douglas não consegue repetir o êxito total de seu primeiro Gekko, mas com um personagem desses fica difícil errar. Talvez Douglas tenha ficado menos inescrupuloso com o passar dos anos, assim como seu personagem, mas no geral, suas tramóias continuam dignas de mestre. Temos ainda Josh Brolin como Bretton James. O ator, que já trabalhou com Stone em“W.” (obra que ainda não deu as caras no Brasil), está muito bem e mostra confiança como um perfeito cretino engravatado. Destaque para Frank Langella com sua pequena e excelente participação como Lois Zabel. Susan Sarandon também aparece como a mãe de Jake, mas a personagem acaba sendo pouquíssimo explorada.

“Wall Street: O Dinheiro Nunca Dorme” não supera seu antecessor, mas funciona. Com uma trama elaborada, que traz a bolha financeira como personagem importante, o filme derrapa no drama, mas convence na dinâmica e fluidez do enredo geral. Com boas interpretações, uma direção segura e edição competente, a obra agrada , e é um prato cheio aos interessados pelo tema. A ganância é uma coisa boa? Assista e tire suas conclusões.

NOTA 3 BOM

"HOMENS EM FÚRIA"


Em seu trabalho anterior com Edward Norton, o diretor John Curran entregou o romance chamado “O Despertar de Uma Paixão”. Repetindo a parceria com o ator, Curran apresenta ao público este “Homens em Fúria”, fita que tenciona ser uma parábola sobre o direito que temos de julgar os outros, mas acaba sendo engolido por suas próprias pretensões.

O personagem principal é Jack (Robert De Niro), agente penitenciário cuja função é avaliar o comportamento dos presos e recomendá-los ou não para condicional. O público já é levado a sentir asco do protagonista pelo fato do longa mostrá-lo, em sua primeira cena, cometendo um dos piores atos de chantagem que posso conceber. Anos mais tarde, Jack e sua esposa Madelyn (Frances Conroy) vivem uma vida miserável, pontuada pelo tédio e pelo desespero silencioso.

Prestes a se aposentar, Jack é designado para avaliar o caso de Stone (Norton), detento acusado de cumplicidade no assassinato dos próprios avós. Desesperado para sair dali, Stone pede para que sua esposa Lucetta (Milla Jovovich) o ajude a convencer Jack a lhe dar um parecer favorável. A partir daí, começa um jogo perigoso entre os três, que começam a revelar suas verdadeiras faces.

Jack talvez seja o personagem mais detestável da carreira de Robert De Niro. Ao longo de décadas, vimos o veterano ator encarnar figuras complexas e de moral mais do que duvidosa, como psicopatas, ladrões, assassinos… Mas Jack é um homem extremamente mesquinho e egoísta, que esconde tudo isso por trás de uma fachada de religiosidade, algo que é extremamente corriqueiro, o que o torna, paradoxalmente, ainda mais assustador. Sem dúvida este é o melhor trabalho de Robert De Niro como ator desde sua participação no fantasioso Stardust.

Ao invés de investir nas características palpáveis dos personagens, o roteiro de Angus MacLachlan se perde em psicologia de botequim e retóricas religiosas que simplesmente não chegam a lugar nenhum, retratadas por sequências longas e morosas pelo cineasta John Curran, com o diretor simplesmente não conseguindo imprimir ritmo algum à trama.

Em contrapartida, o elenco está ótimo, com o quarteto de atores entregando performances competentes. Embora o filme pertença a De Niro, Edward Norton também não fica atrás do colega, criando uma persona completa em Stone. Os trejeitos e dicção criados pelo ator para o preso, que se modificam com o passar do tempo, combinam perfeitamente com o personagem, em um soberbo trabalho de caracterização realizado pelo ator. Interpretações de tal calibre, aliás, já são rotina para Norton.

Milla Jovovich surge sedutora e enigmática como nunca, sendo surpreendente o seu trabalho aqui, considerando suas já conhecidas limitações como atriz. Após anos vivendo apenas heroínas de ação, chega a ser incrível ver a bela ucraniana se arriscando em uma figura tão complicada quanto Lucetta que, graças à atriz, possui um ar que lembra as antigas femme fatales.

Frances Conroy tem a tarefa mais complicada da empreitada, conseguindo exprimir todo o desespero de sua personagem mesmo com pouquíssimos diálogos. Em meros momentos, o olhar de sua Madelyn nos revela uma mulher à beira de um precipício, algo que não só é comovente para o público como também nos ajuda a perceber quão nocivo Jack é para aquela pobre pessoa.

É o elenco que consegue fazer com que o longa se sustente. O texto pretensioso de MacLachlan aliado a uma direção pouco inspirada de Curran simplesmente impede que nos aprofundemos naquele mundo e naqueles personagens. Existem alguns momentos fortes, como o assassinato na prisão, mas não há uma coesão entre eles, algo que prenda o espectador na cadeira entre os diálogos tensos entre aqueles personagens.

Curran flerta com o cinema noir em várias sequências, nos poucos momentos em que o filme dá um passo a mais rumo ao espectador, principalmente nas cenas envolvendo Jack e Lucetta. Sem a imersão do público naquele universo, temos apenas atores talentosos em cena representando personagens, que pouco reconhecemos como seres humanos. Um maior investimento na pergunta feita por Stone à Jack (“quem é você para me julgar?”) talvez conseguisse trazer mais humanidade ao filme.

Infelizmente, “Homens em Fúria” desperdiça o ótimo trabalho feito por Norton, De Niro, Jovovich e Conroy em um longa apenas mediano.

NOTA 3 BOM

terça-feira, 26 de outubro de 2010

"MARIA ANTONIETA"


Na trama, Maria Antonieta deixa seu palácio aos quatorze anos para casar-se com o delfim Luís XVI, herdeiro do trono francês. Inexperiente e resguardando a inocência de uma jovem cheia de aspirações para sua vida, Antonieta vê-se em um ambiente de intrigas e chacotas em Versalhes e a não aceitação de uma vida sacal acaba transformando-a em uma vilã para o povo francês, por não saber como lidar com as problemáticas políticas e por ter seus anseios de liberdade e de uma juventude que não se diferencia quase em nada do mundo contemporâneo. Em Versalhes, Antonieta viverá momentos de crise pessoal e mundial, sendo tachada desde frígida a impiedosa. Tendo que aprender a viver em um mundo de reverências e inveja, a jovem passa a conviver com companhias que não agradaram a linhagem real do palácio, desfrutando da luxúria consumista e dos desejos hormonais, já que seu casamento era uma preocupação, pois, quanto mais era forçada a seduzir o rei e gerar um filho, menos Antonieta conseguia colaboração de seu parceiro.

A essência feminista de Coppola está cada vez mais amadurecida. Suas pretensões estão se tornando grandes desafios em sua carreira e certamente a construção de "Maria Antonieta" é uma das mais problemáticas. Depois de seus filmes anteriores como roteirista e diretora, é impossível não perceber que a cineasta tem um feeling muito forte ao ambientar sua história e determinar o que será trabalhado em cena. Coppola ousa de uma forma que muitos cineastas veteranos não se atreveriam a ousar e isso se dá pela segurança e na crença em seu talento. De uma sensibilidade incrível, Coppola traz em "Maria Antonieta" elementos que o transformam em mais um grande filme.

O primeiro ato do longa é um tanto sacal, visto sua evolução posterior. Sempre cheio de reverências e de um estranhamento da protagonista com o novo mundo que teria que enfrentar, poucos seriam capazes de ridicularizar Versalhes e Coppola, além de fazê-lo, retira toda a beleza e encantamento do palácio como um todo. Parece que ali dentro só servem os móveis e as pessoas são meras transeuntes fofoqueiras. Todo o processo de aceitação de Maria Antonieta em sua nova vida e as dificuldades vividas aos quatorze anos, onde as cobranças eram maiores do que uma menina ingênua poderia suportar, são perfeitamente registrados e humanizam a rainha. Vale ressaltar que em nenhum momento Coppola pretende defender a polêmica figura de Antonieta, mas faz um estudo psicológico e comportamental do que é uma adolescente ser forçada a receber o mundo em suas mãos e não saber administrar. É aí que se encontra todo o contexto do longa.

Para muitos, a soberba e a vida que Antonieta resolve viver para não endoidar dentro de um ambiente medíocre, pode até pintá-la como a vilã da história da França. Fato ou mito, a Maria Antonieta de Coppola é apenas uma demonstração do despreparo dos jovens em sua visão de mundo. Na realidade, a rainha não sabia em que contexto estava vivendo, muito menos conhecia as possíveis repercussões mundiais de seus atos nada agradáveis. Regado de uma trilha sonora contemporânea que foi bastante criticada por não se enquadrar no ambiente da época, um pouco de bom senso justifica a escolha. Maria Antonieta é nada menos do que um paralelo ao que os adolescentes são hoje em dia e isso condiz não só pelas aspirações, mas sim pelas cobranças que o sistema impõe e todo o rigor familiar. Esta relação é tão clara que é impossível não deixar de compactuar com as fugas que a personagem estabelece para tentar viver um pouco de sua meninice, como se buscasse uma liberdade retirada de si.

Coppola fez questão de deixar em segundo plano as discussões políticas da época, não por não serem importantes, mas seriam uma forma de desvirtuar a intenção principal de seu roteiro. Daí ela decide inserir a política em poucas passagens no decorrer da vida de Antonieta e principalmente no seu final, que acaba se revelando o melhor momento para fazê-lo. Isso também justifica a escolha de parar a vida da rainha muito antes de ser guilhotinada, como conta a história, pois este fato final não teria relevância, pois não condiz com a essência da história montada por Coppola. A diretora consegue realizar mais um trabalho de destaque, que talvez não agrade a todos pela falta de verossimilhança com os verdadeiros acontecimentos (e boatos) sobre a vida de Antonieta, porém dá um caráter bastante autoral para a personagem.

É preciso um pouco de senso para que a admiração do longa não fique somente na direção de arte, figurino e aspectos técnicos que, realmente estão impecáveis, mas não se limitam a isso. Tudo na trama é bem fundamentado e seria impossível que Coppola não soubesse com clareza o que estava fazendo. Por mais que não seja sua melhor obra (particularmente, acredito que “As Virgens Suicidas” seja sua melhor contribuição ao cinema), “Maria Antonieta” mostra um mundo controverso que gera controvérsia a quem assiste. Se você procura um registro histórico cheio de maneirismos de filmes de época, passe longe. A Maria Antonieta de Coppola mostra seu lado cool, ao som de rock, aspirações, guloseimas e luxo. É um retrato de uma menina que não é tão diferente à nossa juventude atual e tais semelhanças levantam interessantes debates sobre isso.

NOTA 4 ÓTIMO

"A HORA DO PESADELO"


Nos atuais filmes de terror, temos um grau de realismo realmente incrível. Uma garganta cortada com perfeição, sangue verossímil aos montes, um rosto queimado deformado e grotesco. Ao lembrarmos esses mesmos efeitos no passado é impossível não rir, pois eles foram tão ultrapassados, que acabaram envelhecendo muito mal. Apesar disso tudo, “A Hora do Pesadelo” de 1984 é um bom filme. Dirigido por Wes Craven, o longa trazia inovações para o cinema de terror, com elementos pop saltando a tela. Foi um grande sucesso.

As grandes mentes de Hollywood tiveram então a brilhante ideia de refazer a obra. Com certeza uma tarefa ingrata. Tudo que há de brega e ruim no cinema atual de terror foi herdado desses típicos filmes dos anos 80. Na época, nada soava ruim, pois não havia um passado vergonhoso tão contundente para compará-los como nos temos hoje. Não me entendam mal, aqueles filmes são clássicos do terror de sua geração e têm o direito de serem chamados assim, mas não podemos negar que tudo mudou tão drasticamente que eles se tornaram obsoletos como a groselha que tomávamos naqueles tempos. Todos esses elementos bregas que citei, no caso da franquia do cruel Freddy Krueger, eram atenuados por um simples motivo: tudo era um sonho. Coisas absurdas como sair as 3 horas da madrugada para procurar o cachorro eram perdoáveis.

Esta nova versão do longa tenta se utilizar desta “desculpa do sonho” para criar seus momentos de tensão, mas falha. O exagero é tão grande na hora de apresentar o clima de terror que acaba sendo cansativo. Até para acender uma luz qualquer a trilha executa suas notas aterrorizantes. A verdade é que o filme infelizmente passa longe de ser adaptado de forma original.

A história começa nos apresentando um grupo de jovens que andam sonhando com um terrível personagem. Ele é desfigurado e possui facas no lugar dos dedos. Compartilhando estranhamente o mesmo sonho, os garotos percebem que existe uma ligação entre eles, que envolve um antigo acerto de contas entre o estranho Freddy e seus pais.

O filme de Samuel Bayer se utiliza inteligentemente de muitos elementos da obra original, o que mostra certa atenção e respeito para com sua fonte. Outro ponto positivo é a agonia criada mediante a privação de sono. Muito bem trabalhados, estes momentos de exaustão realmente são contundentes. As cenas de violência e mortes também são satisfatórias, mas não se destacam como deveriam.

Apesar do link com o filme original, o roteiro é fraco e trabalha pouco seu personagem principal, que fica fadado a solta frases mixurucas de efeito amoral. Apesar de Jackie Earle Haley ser um ótimo ator e se sair bem com máscaras, aqui ele não tinha Alan Moore escrevendo seu texto. Já o time de atores jovens é todo ruim, sem profundidade, sem relevância nenhuma. O trabalho de câmera tem seus momentos interessantes, algumas cenas bem planejadas, ângulos corretos, mas quase nada que cative a plateia a ponto de levar algo daquilo para casa. Tirando uma cena na banheira e mais uma ou duas mortes, o filme não apresenta nada de novo.

Produzido pelo caçador de tesouros Michael Bay, “A Hora do Pesadelo” consegue se sair melhor do que outro assassino da mesma época, Jason da “Sexta Feira 13” (também produzido por Bay). Enquanto o de Krueger é apenas sem graça, o de Voorhees é tão ruim que chega a dar raiva. Mas tudo que Bay toca vira ouro, uma triste realidade. Se preparem para muitos “Transformers”.

NOTA 2 REGULAR

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

"A EXPERIÊNCIA"


the Experiment é um remake hollywoodiano do longa alemão Das Experiment, dirigido por Paul Scheuring. O filme mostra a história de 26 homens que são recrutados para viverem uma experiência em uma prisão. Alguns serão prisioneiros e outros serão os guardas, o objetivo é examinar como o poder influência as pessoas.

Um grupo de pesquisadores resolve selecionar cobaias humanas para uma mórbida experiência: simular o ambiente de uma penitenciária dividindo os homens em dois grupos, os presos e os carcereiros. Prevendo algumas reações básicas do instinto humano, como as de sobrevivência e de rebelião, os pesquisadores acreditam ter toda a situação sob controle. No entanto, medidas tomadas pelos carcereiros para conquistar a obediência, como humilhações e agressões físicas, tornam a prisão simulada numa bomba-relógio.

é um filme que prende o espectador na cadeira até o último instante. A progressão que parte do controle total ao caos irremediável faz parte daquela curiosidade última das pessoas em ver o circo pegar fogo.

"A Experiência" traz à tona aquele instinto mais primitivo e animalesco do ser humano e a vontade de potência que caracteriza qualquer agrupamento social. Nesta luta pelo poder, poucos são aqueles que podem dizer que lucraram algo e a experiência certamente se converte num fracasso, tanto de uma ciência inescrupulosa como daquilo que se convenciona como moral.

O elo fraco do roteiro é o romance entre o protagonista, personagem de Adrien Brody, e uma mulher que ele conhece numa briga pouco antes de ser encarcerado. As digressões psicológicas do personagem de Adrien Brody destoam completamente naquele ambiente opressor e é possível que a intenção do roteirista fosse a de quebrar a tensão constante da trama. Mesmo assim, o inverossímil romance permanece como um corpo estranho no interior do filme, mas nada que interfira fatalmente no desenrolar da história.

Seguindo uma linha de cinema que transmite até as últimas consequências uma angústia visceral, A Experiência é um filme bem interessante que merece ser conferido.

NOTA 3 BOM

"VOLTANDO A VIVER"


Criado com a mesma intensidade vista em seus melhores trabalhos como ator, a estréia de Denzel Washington como diretor em Voltando a Viver conta uma história verídica e emocionalmente carregada sobre a tenacidade e a redenção de um homem.

A sábia decisão de enxugar a autobiografia Finding Fish, transformando-a numa narrativa empolgante, fez com que o roteiro de Antwone Fisher pudesse ser filmado com mão firme e segura por Denzel Washington, que arranca performances marcantes de dois atores principais novatos. A história focaliza o amadurecimento cheio de tropeços de um jovem recruta na Marinha e a busca por sua verdadeira família.

Dono de um temperamento volátil e um jeito soturno, que o levam a indispor-se com seu oficial comandante (numa cena única com o ator James Brolin, cujo nome não figura nos créditos), o marinheiro Antwone Fisher (Derek Luke) é enviado à base de San Diego para ser avaliado pelo psiquiatra Jerome Davenport (Denzel Washington).

Homem inteligente que estuda japonês e desenha, Fisher é possuído por uma raiva que fervilha constantemente. Em tom de desafio, ele diz a Davenport: "Não tenho problemas", e responde a perguntas sobre sua infância com frases evasivas.

Depois de semanas, a história de Fisher começa a emergir em flashbacks que pontilham a ação principal. Nascido de uma mãe detenta, dois meses depois de seu pai ter sido morto a tiros, o garoto sofreu abusos mentais e físicos horrendos às mãos de sua mãe adotiva temporária, sra. Tate (Novella Nelson), em Cleveland.

Após isso, foi colocado num orfanato e, mais tarde, transferido para um abrigo para sem-tetos, de onde saiu diretamente para alistar-se na Marinha.

De repente, as sessões de terapia que a Marinha impusera ao rapaz chegam ao fim, mas Davenport se vê incapaz de deixar de pensar em seu paciente, brilhante mas sofrido. Ao mesmo tempo, Antwone, que nunca pediu ajuda a ninguém na vida, descobre que a idéia de ver mais uma figura de autoridade o abandonando lhe é insuportável.

Pouco a pouco ele começa a controlar seus demônios internos e, atendendo à recomendação de Davenport e com o apoio de sua namorada, Cheryl (Joy Bryant), parte em busca de sua mãe verdadeira, no Ohio.

O psiquiatra começa a receber Antwone em sua própria família, que também tem problemas, e descobre que a influência dele é benéfica.
Denzel Washington se revela um diretor dotado de estilo narrativo limpo e direto. Um material de carga emocional e inspiradora como este poderia facilmente se degenerar em sentimentalismo, mas a abordagem decididamente sóbria do diretor impede que isso aconteça.

O risco de recorrer a extensas sequências de diálogo se justifica, na medida em que Luke e Bryant (Antwone e sua namorada) atuam com tranquilidade e segurança e o grande elenco de apoio se mostra perfeito.

O próprio Denzel Washington imbui seu personagem, o psiquiatra, do misto ótimo de autoritarismo e modéstia, sabendo ser duro quando Fisher o enfrenta, mas suave e gentil quando necessário.

NOTA 4 ÓTIMO

terça-feira, 19 de outubro de 2010

"PREDADORES"


Nascida no final da década de 80, Predador se tornou uma das franquias mais icônicas do período, em especial por reunir fãs de ficção cientifica, terror e suspense sob uma premissa criativa e, até então, não muito utilizada nos cinemas. Estrelada por nomes como Arnold Schwarzenegger e Danny Glover, mesmo longe das telas o alienígena manteve um grupo fiel de fãs, ampliados por games, quadrinhos e outros produtos.

Trazer o Predador de volta às telas em 2010, portanto, não deixava de ser uma aposta temerosa. Coube a Robert Rodriguez planejar e produzir o retorno dos predadores ao cinema e, felizmente, é possível afirmar ao assistir a produção que, se está longe da qualidade dos seus antecessores, ao menos devolve a dignidade à franquia, resgatando alguns valores que haviam se perdido por completo e abrindo possibilidades para novos projetos.

Dirigido por Ninród Antal - dos poucos significativos Temos Vagas e Assalto ao Carro Blindado – o filme aposta em duas vertentes distintas ao longo da projeção e, em ambas, se comporta de maneira satisfatória. Na primeira metade o foco reside no suspense. Sem muita explicação Royce (Adrien Brody) surge em queda livre no céu. Logo, outros aparecem na mesma situação e, reunidos em uma selva, buscam entender o motivo de terem sido levados para aquele lugar bem como uma maneira de voltar para onde vieram.

Com sequências de caminhadas em meio à mata, discussões e pequenos mistérios, os trinta minutos iniciais de filme chegam a lembrar alguns episódios da primeira temporada de Lost, em que o foco era apresentar mistérios em meio à ilha muito mais do que resolvê-los. Nesse momento o roteiro aproveita não só para despertar a atenção por meio do mistério como também para aos poucos revelar características dos caçados e dos caçadores, inclusive remetendo a fatos do primeiro filme - como na sequência em que Isabelle (Alice Braga) cita os acontecimentos de 1987.

Já a segunda parte abandona o mistério e parte para o embate mais brutal, servindo-se de cenas de luta, tiroteios e violência emblemática para justificar a caçada organizada pelos predadores. Nesse ponto o filme, de certa forma, destoa por soar menos sério - ou por não se levar tão a sério - do que na primeira parte. A linha que o separa do trash, em certos pontos, é tênue demais, mas de forma alguma isso compromete o desenrolar da história.

Se há muito mais pontos positivos do que negativos na estruturação da narrativa, infelizmente é impossível deixar de notar alguns clichês e falhas de edição que prejudicam sensivelmente o filme em alguns momentos. A ideia de se ter em cena um “representante” de cada raça ou gênero - temos um negro, um latino, um russo, uma mulher, um americano, um oriental, entre outros - recai no velho clichê politicamente correto, de agradar a todos os tipos de espectadores.

No caso específico de Predadores a justificativa é válida - reunir os combatentes mais fortes do mundo, dentro de suas características -, porém não deixa de ser repetitiva e pouco criativa.

Já em relação à edição o problema é incômodo e prejudica o desempenho da história. Alguns cortes são abruptos demais, dando a sensação de uma montagem pouco cuidadosa e fluída. Em alguns pontos a trama passa de uma sequência para outra aos solavancos, tirando o espectador do filme em determinados momentos para que ele possa tornar inteligível a estrutura de ideias que acabou de ver. Um exemplo claro disso é uma sequência de fuga do grupo, já na metade do filme, em que Edwin (Topher Grace) se perde do grupo. De uma hora para outra ele some do grupo e surge dentro de uma outra sala pedindo ajuda. Não há fluidez alguma na transição e a sensação que fica é que um pedaço do filme foi suprimido, um erro simples demais para uma produção de grande porte.

Adrien Brody no papel do líder do grupo se sai muito bem. Contido em muitos momentos, o ator consegue impor uma espécie de liderança e estabelecer uma empatia (ou antipatia) com o espectador muito mais por meio da ação do que pela força física, algo que não é comum em filmes do gênero. A brasileira Alice Braga também se mostra eficiente, servindo como um contraponto ao perfil de Brody sem precisar para isso ser submissa ao personagem principal. Um dos pontos altos fica por conta da participação de Nolan (Laurence Fishburne). São pouco mais de dez minutos em cena, mas suficientes para mostrar um personagem tão perturbado quanto aterrorizador, capaz de ir de um extremo a outro em questão de segundos. É pena que sua saída de cena seja tão simplória e mal elaborada, não condizendo com o perfil construído pelo ator.

Longe de se tornar uma unanimidade ou ser capaz de reascender a franquia aos níveis em que já esteve, Predadores em resumo se apresenta como um filme eficiente dentro do que se propõe, se afastando um pouco mais da ficção científica para apostar no suspense e no terror. Se por um lado a produção tem seus méritos por retirar da UTI o personagem, por outro deixa no ar a sensação de que os predadores, ao menos no cinema, se encaminham para um outro patamar, longe dos blockbusters de alto orçamento e muito mais perto das produções alternativas para públicos cativos como Sexta-Feira 13, Halloween ou A Hora do Pesadelo.

NOTA 3 BOM